quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Recado de Primavera, Rubem Braga

Meu caro Vinicius de Moraes:

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.
O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.
Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

Num aniversário de Rubem Braga, Zuenir Ventura escreveu  texto inspirado e dedicado a ele. Veja aqui

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Cântico Negro, José Régio

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Fonte:Andrews Souza

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Saudação Aos Que Vão Ficar, Millor Fernandes

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?
Que lei impedirá,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?
Que lei de tráfego impedirá um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que não lhe pertence?
Haverá mais lágrimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?
E o que será loucura? E o que será juízo?
A propriedade, será um roubo?
O roubo, o que será?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo não passará então a ser feiura?
Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos)
não farão às ocultas, homens especiais
que, de repente,
possam duplicar o próprio tamanho?
Quem morará no Brasil,
no ano dois mil?
Que pensará o imbecil
no ano dois mil?
Haverá imbecis?
Militares ou civis?
Que restará a sonhar
para o ano três mil
ao ano dois mil?


Fonte:Banco da Poesia
Imagem: Pinto Moura 

sábado, 11 de novembro de 2017

O Que Estou Lendo: Fantasma, Luiz Alfredo Garcia-Roza

Eu nem sou interessada em romance policial, mas Garcia-Roza é uma exceção e eu gosto muito do seu delegado Espinosa. Recomendo.  

A mulher sentada à beira da calçada na avenida Nossa Senhora de Copacabana só se sente em casa vivendo na rua - estar entre paredes a oprime, ela tem a sensação de que vai morrer sufocada. É tão fina e educada que todos a chamam de Princesa. Seu 'lar' é um trecho do piso de cimento delimitado por pedaços de papelão. Muito gorda, tem dificuldade para se mover. Mesmo assim, não descuida da aparência - alisa bem o vestido sobre as pernas esticadas, penteia-se com esmero e passa batom com pelo menos frequência - sempre que recebe a visita do delegado Espinosa. E o delegado Espinosa visita Princesa várias vezes por dia. Afinal, tudo indica que ela viu quem enfiou uma faca no homem muito branco, talvez um estrangeiro, que amanheceu morto na calçada a alguns metros dela. Mas Princesa costuma sonhar, às vezes até quando está acordada. Isaías é o grande amigo de Princesa. Ele sabe que a amiga viu alguma coisa que não deve ser lembrada. Acredita que precisa proteger a qualquer custo a moça dos perigos que podem surgir da noite - quando ela dorme sozinha na calçada - e do dia, quando os passantes são tantos que é difícil distinguir o inimigo que se aproxima para desferir um golpe. Como Princesa, Isaías é incapaz de lidar com o mundo complicado onde os dois vivem; como ela, é indefeso e vulnerável.(Sinopse da Livraria Cultura).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Ofensa, Tudor Arghezi




Desdenhei do granito, ó companheira,

Do qual te poderia ter moldado.
Busquei na argila do país amado
Teu corpo esbelto e com odor de cera.

Recolhi terra em bosques ancestrais
E amassei-a com minha mão de oleiro
Em partes, cada membro por inteiro
Teu ser pequeno, em sílex fugaz.

Esmaltei os teus olhos de verbena
E os cílios foram folhas de roseira.
As sobrancelhas, ramos em fileira
De erva recente, de uma luz amena.

O teu dorso dos cântaros formei
E se em teus seios tenho demorado
Com mão acesa, sinto-me culpado
Se na cintura a estátua não findei.

E quis ao corpo teu doar afeto
sentindo o tatear dos dedos meus.
Que a doce pena que nos doa Deus
Fosse de mim, te enchesse por completo.

Mulher que em mim a tentação encerra!
Hoje pesar, mas viva, te perdi.
Por que te fiz de argila, e me iludi
Não deixando pra as ânforas a terra?

Tradução: Luciano Maia.

domingo, 5 de novembro de 2017

LivroErrante na Escola Municipal Albenice Maria

     O blog LivroErrante, com a aprovação da direção da Escola M.Albenice Maria, está  tentando levar interesse pela leitura a jovens do fundamental II. Começando com um grupo de 15 alunos escolhidos pelo demonstrado interesse e bom desempenho escolar, o blog enviou 10 livros de estilos e autores diferentes. 
   Os exemplares seguem diretamente para os alunos  e não para a biblioteca da escola.        
     A ideia é que depois de lido eles sejam emprestados a tantos colegas quantos queiram ler. Assim, os livros circularão e quando (se) não tiver mais nenhum interessado, voltem aos seus donos.






     Os livros acima já estão  com os alunos dos 8º e 9º anos, da Escola Municipal Albenice Maria da Silva em Jaboatão dos Guararapes. 

     No dia 14, o blog envia o último pacote com cinco livros. Aí, todos: Sônia, Larissa Leonardo, Adriele, Estefane, Ana Raquel, Francielly, Camila, Naelly, Camile, Alsamir, Adriano, Gustavo, Samuel e Paulo Ricardo terão uma uma lembrança do blog, quando saírem da Escola Municipal Albenice Maria da Silva.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Dia D - Sentimental, Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências este cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar"

In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso,Rio de Janeiro:Ed.Record1985,p.165-166
Imagem: Caricaturista Gilmar.


Veja mais Carlos Drummond de  Andrade  em: 

 Agradável Supresa

Drummond em Defesa de Nara Leão

Porque hoje é...