quinta-feira, 24 de abril de 2008

Muito prazer,Graciliano



"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer." (Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948)
O Grupo Muito prazer, Graciliano está em andamento:
Caetés - com Márcia Regina (RS)
Próximos leitores:Ane(RS); Lucila(BA);Ninah(MG), Nana(RJ);Walquíria(RJ):Rosa(GO);Haydée(RS), Joelma(PB)
São Bernardo com: Ninah(MG)
Próximos leitores:Nana(RJ);Walquíria(RJ);Haydée(RS),Cristiane Rose (RJ)
Próximo livro: ANGÚSTIA - dia 30 de abril para: Ane(RS)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Gentilmente cedido pelo autor


Fábula urbana

José Rezende Jr. *

–Moço, me dá um livro?

–Estou sem moeda.

A resposta escapuliu num refluxo. Uma resposta-padrão, como se fosse aquele o pedido mais natural do mundo. “Livro????”, refletiu, um segundo depois, o homem de terno. Teria o menino pedido “livro”, em vez de “dinheiro”, “trocado”, “um real”??? Mesmo que houvesse o menino pronunciado um coerente “Moço, me dá um de-comer que eu tô com fome” ainda assim alguma coisa estaria fora de ordem e de lugar. A começar pelo diálogo em si. Como haveriam de contracenar neste mesmo cenário – um shopping center, perto das dez da noite – personagens tão opostos quanto este, o homem de terno, e aquele outro, o menino pobre que pedia livro, dinheiro, comida ou outra coisa qualquer? Era, pois, um diálogo inexistente, concluiu o homem de terno.

–Pode ser qualquer livro, moço.

A insistência do menino devolveu o homem à realidade absurda. O homem olhou em volta: nenhum segurança de paletó e gravata, nem o mais remoto zumbido de algum walk-talk. Não que o homem de terno temesse alguma violência por parte daquela triste figura em miniatura. Talvez até temesse, mas em outra situação: estivesse ele parado no sinal vermelho, vidro do carro estupidamente aberto, e o menino, caco de vidro em punho magro, grunhindo com a voz gosmenta de cola de sapateiro, “Aí, tio, me dá um livro aê, tá ligado?”; talvez até temesse, fosse o menino menos menino, não mais o embrião de um perigo futuro, mas o perigo em si, já maduro, aqui e agora. “Não, ainda é cedo para ter medo, pelo menos deste aí... talvez daqui a dois ou três anos”, calculou o homem de terno, avaliando com alívio a altura e o peso do menino.
Na seqüência, o alívio deu lugar à indignação; era uma questão de cidadania: o homem de terno pagava impostos e dízimos, estacionara o carro na garagem automatizada, guardara o ticket no bolso do paletó azul-marinho, tomara o elevador panorâmico, escolhera o andar em que reluziam as lojas desejadas, fizera tudo certo. Tinha, pois, o direito sagrado e constitucional de não ser assim afrontado por tanta realidade, ainda mais nessa fortaleza arquitetada para resistir a toda e qualquer ofensiva da vida real. Ora, a única realidade permitida ali deveria ser a dos reality shows exibidos nas tevês de 29 polegadas das lojas de eletrodomésticos.

–Moço, o livro não precisa nem ter figura. Pode ser do mais baratinho.

De tão pequeno, o menino coube, da cabeça aos pés, num único olhar do homem de terno. O figurino, é certo, não parecia adequado ao personagem “menino de rua clássico”, que exige: calção surrado, pés descalços, cobertor fedorento jogado nas costas nuas, lata de cola nas mãos. Não. Talvez graças a esse artifício, o de fugir ao figurino-padrão da miséria e do abandono, conseguira o menino pobre burlar a segurança do shopping.
“Negligente segurança” rosnou em pensamento o homem de terno, pois a pobreza do menino, ainda que camuflada sob certo grau de dignidade (era possível que tivesse mãe, o menino, “mas pai ausente ou alcoólatra, na certa”), não resistiria a um olhar mais atento: calça com a barra desfeita, camiseta de malha puída enorme, decerto herdada do irmão já morto pela polícia ou pela gangue rival (“Deus, como essa gente tem filhos!”), e tênis que até parecia de marca (“imitação ou roubado, com toda certeza”), mas imundo e com barbante encardido fazendo o papel de cadarço.
Caso persistisse alguma dúvida quanto ao lugar na pirâmide social ocupado pelo menino, bastaria ao homem de terno conferir a indelével marca registrada de pobreza infantil: o nariz a escorrer num resfriado eterno e sem remédio.
O menino secou provisoriamente o nariz com o dorso da mão e voltou à ofensiva, desta vez com o olhar silencioso que implorava, reivindicava, cobrava, acompanhado da interjeição incisiva e curta, que ao homem de terno soou quase agressiva:

–Ã?

O homem de terno olhou em volta, em busca do deserto vazio e seguro de todos os shoppings centers do mundo, esse deserto feito de multidão e sacolas, mas não havia ninguém. “Está ficando tarde”, pensou o homem, tenso. Os únicos vestígios de presença humana vazavam exatamente da livraria envidraçada, cuja fachada refletia dois seres de dimensões tão diferentes frente a frente num encontro improvável. O homem cedeu; entrou, seguido pelo menino. Caminharam quase juntos, mas distantes, até o fundo da livraria.
–Escolhe.
Mal pronunciou, o homem de terno, o imperativo desconhecido – “escolhe” – cujo significado o pequeno interlocutor apenas intuía, pôs-se o menino a percorrer as prateleiras entulhadas de livros de todas as cores e tamanhos. O homem observou, divertido, o olhar de assombro do menino, o queixo apontado para o topo da prateleira, a respiração suspensa, a indecisão em cada músculo do corpo.

–Moço, como é que escolhe?

O homem de terno olhou longamente o interlocutor, até que não restasse qualquer dúvida sobre a meninice daquele menino. E concluiu que não havia mesmo por que temê-lo, não ainda, não esta noite, não neste lugar. O homem percorreu, então, com olhos e dedos, as lombadas dos volumes expostos na prateleira. Puxou um, mais ou menos ao acaso, e estendeu ao menino. Virou-lhe as costas e deu alguns passos em direção ao caixa, já sacando o cartão de crédito, à espera do agradecimento comovido. Que não veio.

–Moço, lê pra mim?
Sem saber a razão, sem ao menos perguntar a razão, o homem estancou. Fez meia-volta. E leu. Ou melhor, esquivando-se do trabalho de apanhar os óculos de leitura no bolso interno do paletó, o homem folheou meio cego o livro em ordem errática, e valeu-se apenas da memória esquecida de quando era pequeno, e emendou uma história na outra, embaralhando enredos e personagens da infância remota que – só agora se dava conta – jamais compartilhara com os próprios filhos.
“Era uma vez um gato de botas perdido na floresta com sua irmã Maria que era bruxa e usava um chapeuzinho vermelho aí chegou o lobo mau perseguindo a Branca de Neve montado no tapete mágico quando encontrou a bela adormecida cercada por sete anões e três porquinhos.”
E lia o homem de um fôlego só, entonação a princípio displicente, incapaz de refletir a tensão de tantos personagens engolfados por destinos trágicos e fabulosos; mas tanta atenção prestava o menino, os olhos brilhando, a véspera do sorriso emoldurada pela secreção eterna a escorrer do nariz, que se viu o homem obrigado a administrar exageros, costurar com alguma coerência diálogos mal-ajambrados, e emprestar um arremedo improvisado de ordem ao caos que ele próprio criara, e modular a voz ao sabor das aventuras e desventuras, e conjurar sortilégios, e reconciliar amores impossíveis, e, no fim, já quase sem fôlego, punir os maus e recompensar os bons.
E melhor só não fez, o homem de terno que nunca havia contado história, porque era tarde, ou por não suportar o assombro familiar e o sorriso antigo que num dia remoto foram seus e agora pertenciam ao menino. E foi-se o homem até o caixa da livraria, da livraria ao elevador panorâmico, do elevador à garagem automatizada, da garagem à rua, tudo num único movimento, sem olhar para trás. E já guiava o homem de terno o automóvel veloz pelo trânsito lento, a boa ação recente aos poucos embotada pela culpa, a culpa que num instante era semente e no outro floresta centenária, a culpa não pela posse de tantos livros, ternos e automóveis, a culpa não pelo medo inicial e a intolerância de sempre, mas a culpa por ter esquecido de dizer ao menino, ainda que ele próprio não acreditasse no que esquecera de dizer, a culpa por ter esquecido de concluir dizendo ao menino “...E foram todos felizes para sempre”, porque é assim que terminam todas as histórias, ou era assim que deveriam terminar todas as histórias.
E foi ruminando o amargor da culpa que o homem de terno parou no sinal vermelho, e foi ainda ruminando o amargor da culpa que percebeu tarde demais o vidro do carro estupidamente aberto, no sinal vermelho, àquela hora da noite vazia. E foi então que o homem de terno, grudado ao volante, avistou o vulto saindo dalgum beco escuro, o vulto que parecia o mesmo menino, mas de alguma forma outro, menos menino, mais forte e ameaçador, o tórax inflado sob a camiseta puída, ou antes a arma oculta sob a camiseta puída, era o menino, era o menino, e o homem vomitou a culpa e engoliu o medo, e trêmulo, incapaz do gesto salvador de fechar a tempo o vidro elétrico, entregou-se o homem de terno ao destino, e viu o menino encher toda a janela do carro, e de sob a camiseta inflada e puída sacar o livro e disparar à queima-roupa:

–Moço, me ensina a ler?
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*José Rezende Jr. publicou o livro errante A Mulher-Gorila e outros demônios (editora 7 Letras) e acaba de concluir Eu Perguntei Pro Velho Se Ele Queria Morrer e outras histórias de amor.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

18 de Abril - dia do livro infantil


Esta data foi escolhida como dia do livro infantil porque é o dia no nascimento de Monteiro Lobato, maior nome do gênero infantil do país.
Mesmo quem jamais leu algum de seus livros, conhece de alguma forma suas criações ou,no mínimo, lembra da musica de todas as manhãs na voz de Gilberto Gil, pela TV Globo nos anos 80:


Sítio do Pica-pau-amarelo
Gilberto Gil
Marmelada de banana
Bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Rios de prata, piratas
Vôo sideral na mata
Universo paralelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
No país da fantasia
Num estado de euforia
Cidade polichinelo
Sítio do Pica-pau-amarelo
Sítio do Pica-pau-amarelo.


Lobato, mais conhecido como autor infantil, também escreveu para adultos:


O Saci Pererê: resultado de um inquérito (1918)
Urupês (1918)
Problema vital (1918)
Cidades mortas (1919)
Idéias de Jeca Tatu (1919)
Negrinha (1920)
A onda verde (1921)
O macaco que se fez homem (1923)
Mundo da lua (1923)
Contos escolhidos (1923)
O garimpeiro do Rio das Garças (1924)
* O Choque das Raças ou O Presidente Negro (1926)
Mr. Slang e o Brasil (1927)
Ferro (1931)
América (1932)
Na antevéspera (1933)
Contos leves (1935)
O escândalo do petróleo (1936)
Contos pesados (1940)
O espanto das gentes (1941)
Urupês, outros contos e coisas (1943)
A barca de Gleyre (1944)
Zé Brasil (1947)
Prefácios e entrevistas (1947)
Literatura do minarete (1948)
Conferências, artigos e crônicas (1948)
Cartas escolhidas (1948)
Críticas e outras notas (1948) Cartas de amor (1948)


*Presidente Negro
re-editado pela Globo Editora


Leia também:
http://livroerrante.blogspot.com/2011/04/dia-nacional-do-livro-infantil-2011-1.html

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Os Fariseus da Praça, Josué Araújo



     Após três meses, afastado do trabalho, por conseqüência de um acidente de carro, fui caminhar um pouco pelo centro da cidade. A clavícula estava calcificada e o corte na face cicatrizava milagrosamente sem deixar marcas. Pensei em retornar à vida boemia, mas não sentia a mesma alegria de antes do acidente.
     Eram dias de inverno com chuvas frias e persistentes. No primeiro dia de trabalho, usei o intervalo do almoço para dar um passeio na Praça da Sé. Jamais gostei do inverno, sempre fui como um escorpião do deserto. Reconheço que há invernos e invernos: O inverno amigo dos privilegiados que se deliciam do calor à beira de uma lareira, deixando o frio da porta para fora; Há também o inverno dos menos privilegiados, que não têm uma porta para entrar.
     O frio não era um argumento forte para que a Praça da Sé ficasse deserta. A torre da Catedral alertava para a possível presença do “Corcunda de Notre Dame." À esquerda, a fonte sobre o buraco do progresso, raramente deixa de ser um objeto decorativo para jorrar água nas cabeças sujas dos menores abandonados. Bem à frente da Catedral, os escribas expulsos na Antigüidade do templo sagrado, representam agora as mais estranhas comédias inspiradas nos “Cem dias de Sodoma e Gomorra” do Marquês de Sade.
     Crianças com olhar de cão faminto arrancam violentamente correntes de ouro do pescoço de senhoras frágeis. Cegos tocam instrumentos musicais para surdos invisíveis.   Masoquistas sem camisa se deitam sobre cacos de vidro cortantes, enquanto “Sargentos Garcias” pulam sobre suas barrigas, forçando suas costas peladas contra os cacos. A expressão no rosto dos sacrificados lembrava mais, uma virgem ao ser desvirginada.
     Os espectadores sádicos demonstram satisfação, atirando-lhes moedas. Nessa arena pública, se reúnem outros escribas e fariseus como políticos e fanáticos religiosos, num paradoxo de interesses comuns: salvar o povo. Os políticos prometem libertá-los da fome e da miséria; Os religiosos prometem salvar a alma.
     Ambos fazem promessas, dão a garantia de Deus e empenham até a própria alma. O interesse dos salvadores é maior que o interesse das vítimas, em serem salvas. Com um pacote de pipocas na mão, eu passei ao lado do Marco Central e parei em frente a um canteiro de flores. “Que neblina chata!” A neblina, fina e fria, brincava de não molhar as pessoas. Sentado no banco do canteiro, um maltrapilho muito velho tremia de frio e fome. Próximo a seus pés descalços, vários pombos disputavam um punhado de grãos na lama pisoteada do canteiro. Percebia-se claramente, uma ponta de inveja na expressão triste do rosto barbudo e marcado por maus tratos, do pobre molambo ambulante.
     A sua boca não conseguia abrir para um pedaço de pão velho e duro. O frio devia ter endurecido os seus maxilares como a pedra do “marco central” da cidade, representado naquele obelisco bem ali no centro da praça. O velho voltou à atenção para os pombos e eu pensava comigo: “Que bichinhos gulosos! Comem tão rápidos que até formam nós no meio do pescoço! Que pena que mendigos não comem milho cru!”
     Gotículas de neblina deslizavam sobre a oleosidade das penas dos privilegiados pombos. O mendigo devia estar com inveja dos pombos:“Criaturas de sorte! Não sentem frio e comem milho cru. Gente sente frio...gente? Mendigo não é gente. Mendigo é um ser humano. Não é pombo de Deus ou cachorro de madame. Simplesmente uma questão de penas, apenas...ou de rabo?” O mendigo sonhava acordado, os pombos engoliam os milhos e eu as pipocas.
     Há certos momentos da vida, que acontecem cenas como esta, em que eu não sei se dou risada, se choro ou se me sinto ridículo. O bastardo social passou o braço peludo pelo nariz e ergueu a cabeça com o olhar voltado para o céu. Gesto idêntico ao de um orangotango de zoológico, fazendo caretas para os moleques. Subitamente, levou as mãos, ao lado esquerdo do peito. Os olhos se arregalaram com expressão de dor fulminante.
     Uma pipoca se enroscou na minha garganta, ao mesmo tempo em que a mão do mendigo, trêmula e lenta vinha na minha direção. A pipoca desceu garganta abaixo. Sem ação e num gesto inútil, ofereci o que sobrou das pipocas ao gorila cansado, mas o corpo do infeliz caiu inerte de cima do banco. O nariz do velho enterrou-se na lama, expulsando os pombos.
      Apressei-me em socorrê-lo. Virei o seu corpo ao contrário. Dois olhos pretos e sem brilho, se destacavam no meio de um emaranhado de fios de barba ensopados de lama. Consternado, comecei a me afastar de marcha-ré, soltando as pipocas. O mais incrível era que ninguém se dava conta do que estava acontecendo. O meu traseiro deu de cara com o marco central da maior metrópole do Brasil.
     Ao redor da torre, os pombos voavam em círculos. Os sinos tocavam, quem sabe pelas mãos do espírito do corcunda de Notre Dame. Senti o traseiro molhado e só então, tomei consciência de que estava sentado no coração de São Paulo. O coração da cidade fria estava molhado de neblina... Ou quem sabe de lágrimas? Lágrimas de Pedra?

sábado, 12 de abril de 2008

Viola Vaughan

O Melhor Trabalho de Minha Vida
Kaolack, Senegal (CNN) - Depois da morte súbita de sua filha de 26 anos, deixando cinco netos aos seus cuidados, Viola Vaughn procurou encontrar a paz.
Ainda que tivesse nascido em Detroit, Michigan, ela trabalhou a maior parte de sua vida na África que ela considerava como sua terra natal. Então, ela e o marido voltaram para lá para educar a nova geração e “ver os coqueiros crescerem”.

“Mas o universo tinha outro destino para mim”, diz Vaughn.

Ela não poderia ter imaginado que estes planos fossem incluir não só mais tragédia mas também a motivação necessária para dar oportunidades de educação a centenas de crianças que haviam deixado a escola.

Logo depois de se mudarem para Kaolack, Senegal, em 2000, o marido de Vaughn – o músico de jazz Sam Sanders – morreu de doença pulmonar. Em meio ao seu luto, Viola se confortou com a presença de seus netos cujas idades variavam de 4 a 12 ano, e preencheu seus dias ensinando-os em casa as matérias da escola. O sucesso que ela teve logo chamou a atenção dos habitantes locais.
“Minha neta tinha uma amiguinha com quem brincava. Esta menina vinha todo dia e queria ser ensinada junto com minhas netas.”, Vaughn conta.

“Fui visitar a mãe dela, e ela me contou que a menina já havia sido dispensada pela escola, porque não era inteligente o suficiente. Bem ela foi esperta o bastante para me achar. Então disse para ela, “Está bem, eu te ajudo.”
Em duas semanas, Vaughn tinha 20 meninas na sua casa, todas em perigo de não passarem de ano na escola e pedindo a ela serem ensinadas.
Vaughn descobriu então que a percentagem de meninas passando de ano era muito pequena porque as necessidades econômicas locais requisitavam que as meninas trabalhassem em casa. Elas começam por faltar às aulas frequentemente e depois desistem ou são reprovadas.
Em 2001, Vaughn transformou os quartos de dormir de seus netos em salas de aula e começou a suprir as necessidades de educação das meninas.

“Trabalhei com pares. Para cada menina, achei uma outra mais nova e disse: Você agora é responsável por ela aprender. Eu ensinei a cada uma como ensinar às outras”.

E funcionou. Em dois anos o grupo de meninas cresceu para 80 – e elas se deram bem na escola. Com um apoio financeiro de fora, Vaughn conseguiu pagar a outras professoras e o programa continuou a se expandir apesar de sua intenção inicila de colocar o limite de 100 meninas.

“As meninas queriam levar o programa a 10.000.” diz Vaughn.

Para fazer o programa “10.000 Meninas” funcionar, as meninas pediram a Vaughn que as ensinasse a cozinhar. Elas começaram a vender biscoitos e sucos e com o dinheiro comprar livros e material escolar.

Logo, logo elas engajaram a ajuda de suas irmãs e primas mais velhas – que já tinham sido reprovadas nas escolas – para cozinhar e vender quitutes. A parte empresarial do programa nascia.

‘Elas estavam apoiando seu próprio programa”, disse Vaugn. “Foi impressionante.”

Hoje além de uma confeitaria e serviço de catering, “10.000 Meninas” gerencia um ateliê de costura e as meninas exportam suas bonecas feitas à mão e peças de cama e mesa para o exterior. 14:30 (1 hora atrás) excluir Ladyce

As meninas recebem metade dos fundos das verbas ganhas com as vendas. O resto é gasto no gerenciamento do programa de educação que já não se encontra mais na casa de Vaughn.

Mais de 1.500 meninas estão registradas nos programas em 6 diferentes locais e 1.000 meninas esperam por uma vaga.

“Hoje, há nas universidades, meninas que tinham sido reprovadas nas escolas locais.” -- Vaughn sorri. “A nossa esperança é que se conseguirmos graduar 10.000 meninas, 1000 voltarão para Kaolack para trabalhar. Isto revolucionaria a região toda.”
“Aqui estou eu, aposentada e este é o melhor trabalho que tive a vida inteira.”



Tradução: Ladyce West
CNN 10/abril/2008
http://www.cnn.com/2008/LIVING/04/10/heroes.vaughn/index.html

terça-feira, 8 de abril de 2008

Comentário

O Que Podemos Fazer?
Regina Porto

Recebo de Letícia matéria sobre hábitos de consumo de cultura pelo brasileiro. A matéria, encomendada pela Fecomercio-RJ, mostra que nós vamos pouco a shows, teatro, cinema e lemos pouco. “-- A pesquisa derruba todo o cenário construído até agora sobre o tema, que fala muito de preços altos e do medo da violência na rua. Ela mostra que o brasileiro não consome cultura porque não conhece e, por isso, não gosta. È uma falta de hábito que leva ao desinteresse, o que só pode ser resolvido num trabalho de longo prazo – resume o presidente do Sistema Fecomércio-RJ, Orlando Diniz.”
Prossegue dizendo que a falta de hábito foi constatada em todas as classes sociais. Detenho-me nos livros e encontro, ainda na matéria, o que se segue: “Do total de entrevistados, 69% disseram, por exemplo, que não leram nenhum livro ano passado.”
A pesquisa diz que é irrelevante se da classe A ou D se tem instrução universitária ou básica. A pouquíssima leitura é a mesma. Somente 5% declararam não poder comprar livro. Para os demais a falta de hábito ou apenas o franco: “não gosto”.

Desde março quando recebi a matéria, fiquei pensando sobre esse desinteresse pela leitura.
O preço, só afetou 5% e mesmo assim temos de pensar se o percentual não é realmente menor uma vez que a proliferação de bares é visível.
Não creio que o computador tenha afastado ninguém dos livros. Alguma pesquisa sobre isso?
A escolaridade básica não teria alguma participação nisso? Existem muitas crianças analfabetas totais mesmo freqüentando as terceiras-séries;
Em missa ou cultos evangélicos, preciso da ajuda divina para compreender o que de forma gaguejada, acentuação incorreta e sem pontuação é lido pelos fiéis.
Outro dia ouvi uma professora me dizer entristecida, porém convicta: “eles se entértem com qualquer coisa, como posso dar aula desse jeito?”

Engano. Alunos e professores são vitimas de um descaso imenso e de longas datas. Não há eficácia em nenhuma campanha de incentivo à leitura se não passar antes pela melhoria do ensino básico. Trabalho árduo e prolongado para resultado não tão imediato que dê votos a este, o próximo e o próximo presidentes. Mas se jamais começar, desde agora teremos a certeza de que, como num dominó, breve teremos reitores “entertidos” em livros líquidos e não em seus afazeres administrativos. É grave.
Que podemos fazer? É urgente.


P.S: livro mais vendido categoria não ficção: 1808 – Laurentino Gomes R$ 20,30
1 latinha de cerveja Antarctica: R$1,22
O livro mais vendido da última semana de março 2008 custa: 16,63 latinhas de cerveja.

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Matéria citada publicada no Jornal O Globo do dia 28/03/2008
Livros mais vendidos: Estadão
Preço do livro: www.saraiva.com.br
Preço da cerveja: variou entre R$1,22 e R$1,25 - usei o menor preço.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Sexta poética - 4

Alienação

Márcia Regina
Rejeitam-se corpos entre surdas ameaças
Olhos de olhares vazios
Bocas mudas de som
Fecham-se portas no cerrar de caminhos
Fendas ressecadas são amortecidas
Mãos andarilhas não revolvem mais
Rejeitam-se corpos entre surdas ameaças
Teus olhos vazios
Minha boca muda


quinta-feira, 3 de abril de 2008

Muito prazer, Graciliano.


Começou hoje o grupo de leitura de Caetés na comunidade Livro Errante.
Caetés, primeiro romance de Graciliano Ramos, começou a ser escrito em 1925 e foi concluido em 1928. Sua publicação, porém, só aconteceu em 1933 quando o autor tinha 41 anos. Graciliano Ramos, então prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, enviou ao governador do Estado das Alagoas a prestação de contas de sua gestão como prefeito. O relatório, por sua qualidade literária, chegou às mãos de Augusto Frederico Schmidt, editor que perguntou ao autor se ele não teria outros escritos que pudessem ser publicados. Tinha.

P.S: o relatório, está no livro Viventes das Alagoas(livro póstumo-1962). Pela absoluta correção, concisão e clareza deveria ser obrigatório para estudantes e professores. Deveria ser obrigatório também a todos os nossos políticos pelo exemplo indiscutível de lisura.(comentário de minha total responsabilidade, não reflete necessariamente a opinião dos demais membros da comunidade L.E)