terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mais um Vargas Llosa

O novo livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa, "El sueño del celta", será lançado no dia 3 de novembro em todos os países de língua espanhola, anunciou a editora Alfaguara. O romance "El sueño del celta" chegará às livrarias da Espanha, América Latina e ao mercado em espanhol dos Estados Unidos, quatro anos depois de "Travessuras da menina má".
Vargas Llosa precisou de três anos para concluir a obra, que conta a vida do irlandês Roger Casement (1864-1916), diplomata britânico que denunciou os abusos cometidos durante a colonização no Congo belga e posteriormente no Peru, no processo de extração da borracha do Amazonas. O escritor peruano, de 74 anos, que vive entre Lima e Madri, descobriu Casement, homossexual que também lutou pela independência da Irlanda e acabou condenado a morte, lendo uma biografia do escritor britânico Joseph

Esvaziando a estante

Estou na estante virtual:

http://www.estantevirtual.com.br/acervo/reggyna

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Segunda-feira poética: Shakespeare

Soneto 116

De almas sinceras a união sincera

Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.


Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.


Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,


Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

sábado, 28 de agosto de 2010

A Letra e a Voz- Livraria Cultura do Recife

Festival A Letra e a Voz tem programação na Livraria Cultura



A programação de hoje do festival A Letra e a Voz continua hoje à tarde, na Livraria Cultura, no Bairro do Recife, às 15h. O escritor Flávio Carneiro vai ministrar o curso Viver de Literatura, onde vai abordar questões sobre a criação literária, a relação com os agentes, os editores, a mídia, os leitores e outros escritores.

Depois, Carneiro lança o livro O leitor fingido, uma reunião de ensaios em que discute as impressões causadas pelo texto no leitor e vice-versa, a partir de detalhes das histórias policiais, da tom emocional que move os poemas e os romances, além dos espaços de reflexão política e histórica presentes nas entrelinhas do gênero conto.

(Do. Diário  de Pernambuco on line) 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Horóscopo poético - Virgem - 23 de agosto a 22 de setembro

VIRGEM
Vinicius de Moraes


Se Florence Nightingale era Virgem
Não sei... mas o mal é de origem.


A mulher de Virgem aceita a amante
Isto é: desde que não a suplante.


Sexo de consumo, pães-de-minuto
Nada disso lhe há de faltar
O condomínio é absoluto
A Virgem é mulher do lar.


Opala, safira, turquesa
São suas pedras astrais
Na cuca muita esperteza
Na existência, muita paz."

Cinderela Sec. XXI

Toda menina um dia sonha ser princesa. E encontrar um príncipe encantado para viver feliz para sempre. Mas aí a gente cresce e, não demora muito, percebe que é bem difícil seguir aquele roteiro dos contos de fada que ouvíamos quando criança. Primeiro porque logo saca que príncipe não existe. Encantado, então, nem com a melhor boa vontade do mundo. Segundo porque para viver feliz para sempre não basta estar com o homem que se ama. A gente quer ter uma carreira, ganhar dinheiro, se sentir realizada, respeitada e manter a independência. Claro, se foi para isso que lutamos durante tanto tempo – e ainda o fazemos – por que se contentar com menos?
A Cinderela Mudou de Ideia, é então, o livro para quem  já não vive sonhando...Para quem sabe  que Ciderela não sendo um perfeição  em nada também não pode nem  deve esperar por nenhum  príncipe encantado. Bem humoradas as autoras questionam, por exemplo, a submissão feminina que a modernidade não acabou.  Interessantíssimo.

A Cinderela Mudou de Ideia
Nunila López Salamero
Ilustrações de: Myriam C.Serra
Ed. Planeta
Páginas: 88
R$24,90(livrarias Cultura e Saraiva)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

LivroErrante: Segunda-feira poética: Cecília Meirelles

LivroErrante: Segunda-feira poética: Cecília Meirelles: "A Amiga Deixada Antiga cantiga da amiga deixada. Musgo da piscina, de uma água tão fina, sobre a qual se inclina a lua exilada. A..."

LivroErrante: Quarta-feira é dia de conto: Alphonse Daudet

LivroErrante: Quarta-feira é dia de conto: Alphonse Daudet: "As Fadas da França Conto fantástico. - Acusado, levante-se! – disse o presidente. Ocorreu um movimento no banco hediondo dos incendiári..."

LivroErrante: Quarta-feira é dia de conto: Alphonse Daudet

LivroErrante: Quarta-feira é dia de conto: Alphonse Daudet: "As Fadas da França Conto fantástico. - Acusado, levante-se! – disse o presidente. Ocorreu um movimento no banco hediondo dos incendiári..."

LivroErrante: Clarice vírgula

LivroErrante: Clarice vírgula: "Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-am..."

Cordel do bons: O Mistério da Pele da Novilha

Está à venda novo livro do nosso amigo, o cordelista  Josué de Araujo

"Na noite mais escura, a tempestade traz à porta de João Simões um estranho viajante. Seu alforje esconde uma amarelada pele de novilha. Pela manhã, depois do café, com voz grave olhar perdido no horizonte, o peregrino inicia a história daquela pele e fala da maldição que o persegue há muitos anos. Uma narrativa surpreendente."
 (Texto na contra capa feito pelo professor Aderaldo Luciano, doutor em literatura com tese em cordel.)

Onde comprar?
Editora Luzeiro Ltda
R. Dr. Nogueira Martins, 538 - Saúde SP
Fone: (11)5585 1800 ou 5589 4342
Ou pela internet: www.editoraluzeiro.com.br
E-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br
Estadão há 190 dias sob censura

As Fadas da França, Alphonse Daudet


     - Acusado, levante-se! – disse o presidente.
     Ocorreu um movimento no banco hediondo dos incendiários, e alguma coisa de informe e de tiritante veio apoiar-se contra a barra. Era um feixe de trapos,de buracos, de peças, de cordas, de velhas flores, de velhos penachos e, por cima de tudo, um pobre rosto fanado, brunido, enrugado, maltratado, em que a malícia de dois pequenos olhos negros cintilava no meio das rugas, como um lagarto na fenda de um velho muro.
     - Como se chama? –perguntaram-lhe
     - Mélusine.
     -Como disse? ...
     -Mélusine
     Sob o forte bigode de coronel dos dragões, o presidente deu um sorriso, mas continuou, impassível:
     - Idade?
     - Não sei mais
     - Profissão?
     - Eu sou fada! ...
     De espanto, o auditório, o conselho, o próprio comissário do governo, toda a gente enfim soltou uma grande gargalhada. Mas isso não a perturbou absolutamente, e com voz frágil, clara e cheia de trêmulos, que subia alto na sala e planava como uma voz de sonho, a velha continuou:
     - ah! As fadas da França! Onde estão elas? Todas mortas, meus bons senhores. Eu sou a última. Não resta mais nenhuma senão eu... Na verdade, é grande perda, pois a França era bem mais bela quando ainda tinha fadas.
     Éramos a poesia do país., sua fé,sua candura,sua juventude. Todos os lugares que freqüentávamos os fundos dos parques cheios de mataréu, as pedras das fontes, as pequenas torres dos velhos castelos, as brumas dos lagos, as grandes planícies pantanosas, recebiam de nossa presença algo de mágico e de imenso. À claridade fantástica das lendas, viam-nos passar um pouco por toda parte, arrastando as saias num raio de luar, ou correndo pelos prados, na extremidade das plantas. Os camponeses nos amavam, nos veneravam.
     “Nas imaginações ingênuas, nossas frontes coroadas de pérolas, nossas varinhas de condão, nossos bastões encantados, misturavam um pouco de temor à adoração. Nossas fontes, igualmente, permaneciam sempre claras. As charruas se detinham nos caminhos que guardávamos; e como inspirávamos o respeito pelo que era antigo – nós, as mais velhas do mundo – de um a ouro extremo da França, deixavam-se as florestas crescer e as pedras se deslocarem por si mesmas.
     “Mas as o mundo progrediu, as estradas de ferro vieram. Cavaram-se túneis, entulharam-se os lagos, cortaram-se tantas árvores, que bem depressa não sabíamos mais onde nos metermos. Pouco a pouco, os camponeses deixaram de acreditar em nós.À noite, quando batíamos nos postigos, Robín dizia: ‘é o vento’ e tornava a dormir. As mulheres vinham lavar roupa nos lagos.Desde então, tudo se acabou para nós. Como não vivíamos senão da crença popular, perdendo-a, tínhamos perdido tudo. A virtude das nossas varas de condão esvaiu-se, e, de poderosas rainhas que éramos,transformamo-nos em velhas mulheres, enrugadas,malvadas como fadas esquecidas. Além disso, com o pão para ganhar e mãos que não sabiam fazer nada. Durante algum tempo, éramos encontradas nas florestas arrastando cargas de lenha seca ou amontoando espigas à beira das estradas. Mas os trabalhadores florestais eram duros conosco, os camponeses nos atiravam pedras. Então, como os pobres que não encontram mais do que ganhar a vida na região, fomos procurar trabalho nas grandes cidades.
     “Algumas entraram nas fiações. Outras venderam maçãs no inverno, à entrada das pontes, ou objetos religiosos nas portas das igrejas. Empurrávamos diante de nós carrocinhas de laranjas, estendíamos aos passantes ramalhetes de um níquel, que ninguém queria, e os pequenos zombavam de nossos queixos trêmulos, e os sargentos da cidade nos faziam correr, e os ônibus nos atropelavam.    Depois a doença, as privações, um lençol de hospital sobre a cabeça... e eis aí como a França deixou todas as suas fadas morrerem. Ela tem sido bem punida por isso!
     “Sim, sim, riam, meus caros. Não obstante, acabamos de ver no que se transformas um país que não tem mais fadas. Vimos todos esses camponeses gananciosos e sorridentes abrirem suas caixas de pão aos prussianos e lhes indicarem entradas. Aí está! Robin não acreditava mais nos sortilégios; mas também não acreditava mais na pátria...
     Ah, se houvéssemos estado ali, nós outras, de todos esses alemães que entraram na França, não sairia um vivo. Nossos duendes, nossos fiés diabinhos os teriam conduzido pelos caminhos que se afundam na terra. Em todas as fontes puras que levavam nossos nome teríamos misturado beberagens encantadas que os teriam enlouquecido; e, em nossas reuniões, ao luar, com uma palavra mágica, teríamos confundido de tal forma as estradas, os rios, e entrançado tão bem espinhos, sarças,carrascais, essas partes baixas do bosque, onde eles iam sempre enroscar-se, que os olhinhos de gato do Sr. De Moltke não poderiam jamais reconhecê-los. Conosco os camponeses teriam marchado. Grandes flores dos nossos lagos nos teriam dado bálsamo para os ferimentos, os fios da virgem nos teriam servido de pensos; e, nos campos de batalha, o soldado, ao morrer, teria visto a fada do seu cantão inclinar-se sobre seus olhos semifechados, para lhe mostrar um canto do bosque, um trecho da estrada alguma coisa que lhe lembrasse a terra natal. É com isso que se faz a guerra nacional, a guerra santa. Mas, ái de nós! Nos países que já não crêem, nos países que já não têm fadas, essa guerra não é mais possível.”
     Aqui a vozinha aguda interrompeu-se por um momento, e o presidente tomou a palavra:
     - Tudo isso não nos diz o que fazia a senhora do petróleo encontrado em seu poder, quando os soldados a detiveram.
- Eu queimava paris, meu bom senhor – respondeu a velha, muito tranqüilamente. – eu incendiava Paris, porque a odeio, porque ela se ri de tudo, porque foi ela que nos matou. Foi Paris quem enviou sábios para analisarem nossas fontes miraculosas e dizerem exatamente o que entrava de ferro e de enxofre na sua composição. Paris zombou de nós nos teatros. Nossos encantamentos se tornaram truques , nossos milagres, divertimentos, e viram-se tantas caras abjetas ostentarem nossos vestidos cor-de-rosa, nossos carros alados, em meio ao luar e aos fogos-de-bengala, que ninguém mais pensa em nós sem rir... Havia pequerruchos que nos conheciam pelos nomes, que nos amavam e nos temiam um pouco. Mas, em lugar dos belos livros, enfeitados de ouro e de figuras, onde aprendiam nossa historia, Paris agora lhes põe nas mãos e ciência ao alcance das crianças, grossos alfarrábios, de onde o aborrecimento remonta como poeira cinzenta e apaga nos pequeninos olhos os palácios encantados e os espelhos mágicos...Oh! sim, estou contente de ver queimar Paris... Era eu que enchia as caixas dos incendiários, e eu mesma que os conduzia aos lugares adequados: “ Vão, meus filhos, queimem tudo, queimem, queimem...”
     - Decididamente, essa velha é louca – disse o presidente. – Podem levá-la.


(O blog manteve a grafia original)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Clarice vírgula

Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamim Moser. Resenhada com destaque pela imprensa estrangeira, como o jornal The New York Times e a revista The Economist, a obra revela, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. A partir dessa pesquisa inédita, Moser tece relações entre a vida e a obra da brasileira – assim fazia questão de ser reconhecida – numa narrativa envolvente. O livro tem aberto os olhos internacionais para a literatura de Clarice Lispector, até agora restrita a alguns meios.

Clarice,
Ed.Cosac Naify
Ano 2009
Páginas: 648
R$68,00 (Livraria da Travessa)
R$82,00 (Livraria Cultura)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Segunda-feira poética: Cecília Meirelles

A Amiga Deixada
Antiga
cantiga
da amiga
deixada.


Musgo da piscina,
de uma água tão fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.


Antiga
cantiga
da amiga
chamada.


Chegara tão perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto...
Cantava — mais nada.


Antiga
cantiga
da amiga
chegada.


Pérola caída
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois — quebrada.


Antiga
cantiga
da amiga
calada.


Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
— giro de andorinha
na mão da alvorada.


Antiga
cantiga
da amiga
deixada.






Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

sábado, 21 de agosto de 2010

Poesia no ônibus

Passageiros do Rio poderão ler poemas nos ônibus




"Circulando Cultura", é um projeto da Academia Brasileira de Letras que  visa a divulgação da poesia e incentivo à leitura. Em convênio  com a Rio Ônibus a ABL, vai disponibilizar poemas para que sejam  lidos pelos passageiros dos ônibus  da Cidade maravilhosa. Oito poemas foram selecionados para dar início a esta boa ideia que  começará na próxima semana nos 8.500 veículos. Numa segunda etapa o projeto se estenderá por outras cidade.

Um dos poemas que vão circular:

As Pombas
Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada ...
Vai-se outra mais ... mais outra ... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...


(Fonte: Jornal Folha de São Paulo)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Recital de Cordel

Próximo sábado dia 21 é dia de cordel em  Itaim Bibi.  O artista plástico e cordelista Guilherme de Faria dará palestra e participará do recital de cordel  no Gabinete de Curiosidades.
Para quem  não  sabe a Personagem Diadorim de Guimarães Rosa em Grande Sertão, Veredas foi inspirado no cordel: A Donzela que foi à guerra, que vai ser recitado por Guilherme. No evento o  cordelista também  recitará "Sonetos da Sertaneja" e "Romance do Galo", de sua autoria.


Gabinete de Curiosidades -
R. Iaiá, 54, Itaim Bibi, zona oeste, São Paulo, SP.
Sáb. (21): 12h. Grátis. Classificação etária: livre.

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Nota: sobre  o poema Infância de Paulo Mendes Campos, postado neste blog no  dia 16/08, internauta informa possível erro na frase: "... ia lavar a boca no riacho"; solicito de quem possuir o livro Domingo Azul do Mar, verificar sobre isso e informar para que faça a devida correção se for o caso. agradeço.
 

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Os Dois Segredos, Marcos Rodrigues


    
As famílias costumam guardar segredos entre os mais velhos. Pode ser a inesperada riqueza de um primo, o sumiço de um tio ou o porquê de um pai silencioso. Às vezes, não se conta todo o segredo. Às vezes, os segredos se perdem. Outras vezes, não. Há os segredos leves. Mas há também os pesados. Graves.

     Passei minha infância numa divertida rua de terra. As casas tinham muitas crianças e, porque sem saída, a rua era nossa. As meninas brincavam na calçada. Os meninos jogavam bola até o escurecer.
Certo dia, um menino mudou para nossa rua. Branquelo do cabelo ruivo. Mal falava português. Assim conhecemos um judeu, ninguém sabia o que era um judeu. O menino foi se aproximando aos poucos. Era sorridente. Meio tímido, claro, mas se deu bem. Entrou para a turma em pouco tempo.
     Descobrimos, com ele, os horrores de um campo de concentração. Não sabíamos o que era isso. Soubemos que a mãe dele escapara de um. Era uma mulher alta e bonita, com peitos grandes. Trabalhava fora. Quem cuidava da casa era uma empregada. Não havia pai naquela casa.
     Víamos com assombro o número tatuado em seu braço, A30123. Ela escapou porque falava várias línguas. Trabalhara no escritório do campo de concentração, disse o menino. Por meses, cavou com gilete um buraco no piso, abaixo do tapete. No momento certo, se escondeu no buraco. Foram dias até a chegada dos americanos. Que história! A meninada ficou assombrada.
     Outra notável descoberta foi a circuncisão. Ficamos aterrados. Meu irmão mais velho, na hora, pregou um apelido no menino: manga curta. Manga. Ele subiu de status. Com essa, ficaram amigos.
     E o tempo, claro, passou. E eles seguiram amigos, bem próximos. Muitos, muitos anos depois, meu irmão se foi. O Manga se aproximou mais de nossa família, mais ainda de mim. Quando tinha seus cinquenta e oito anos, me chamou. Disse que estava mal, não ia durar muito. Explicou tudo, a coisa era séria. Fiquei arrasado.
Muito tenso, ele disse que me passaria um segredo de família. A ser levado para seu filho, depois que ele e a mulher tivessem ido. Leu o pequeno papel antes de me entregar: "Querido filho, serei breve. Sua avó nunca foi intérprete. Ela atendia a casa de Arthur Liebehenschel, o segundo comandante de Auschwitz. Ele a tirou do execrável Bloco 24. Você lerá sobre esse bloco e vai entendê-la. Liebehenschel é meu pai. Fui registrado no Rio em 1948, mas nasci em Peenenmünde em 1945. Uma filha de Liebehenschel, essa sim legítima, Barbara Cherish, foi adotada por americanos. Recentemente revelou seu segredo em livro. Leia o livro, mas não a procure. Em hipótese alguma. Soube de tudo depois de casado, mas não contei para sua mãe, ela não resistiria. Como dizer a ela que seu ventre foi fecundado por um filho de Arthur Liebehenschel? Ainda mais ela, criada em Haifa, educada na Hebron. Eu jamais me perdoaria. Seja feliz."

     Como "seja feliz?". Fiquei quieto. Absorvi o tranco, bruto danado. Calado. Abraçamo-nos. Não havia o que dizer.
Passou um tempo e ele se foi. Mais um tempo e foi a vez dela. Deixei as coisas esfriarem, criei coragem e liguei pro filho do Manga. Disse que passaria por Barretos, iria visitá-lo. Eu queria resolver logo essa parada. Levei o pequeno papel no bolso.
Cheguei lá depois do almoço. A casa era bem arrumadinha, dessas de interior com varanda de piso vermelho. Ele ali, com as crianças, meio sem graça com minha visita.     Falou de sua vida de veterinário e os planos para o futuro. Ela falou das crianças, da escola e do cachorro. Eu falei umas bobagens, me preparando para a dura conversa. Mas, vendo aqueles quatro ali, começando, fui me ausentando. Calando-me, até que, absorto, me calei. Imagino que longamente. Ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, muito bem, mas precisava partir. Foi tudo meio sem jeito.
     Ele me acompanhou até o portão e me despedi: "Seja feliz!".






* Marcos Rodrigues é engenheiro civil , professor titular da Escola Politécnica da USP e dedica-se também à literatura.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Alunos CIn/UFPE criam espaço virtual literário visando incentivo à leitura

Utilizando os conceitos assimilados durante o curso de graduação em Ciência da Computação do Centro de Informática (CIn) da UFPE, os estudantes-empreendedores André Carvalho, do 6º período, e Rafael Carvalho, formado em 2008, desenvolveram o website Sinopse do Livro com o objetivo de incentivar o hábito da leitura. Para conhecer o website basta acessar: http://www.sinopsedolivro.net .


Com design leve e interface amigável, o site tem um acervo de livros catalogados por chaves de busca que facilitam a pesquisa dos usuários, estimulando o hábito da leitura. No Sinopse do Livro, o leitor consegue visualizar os livros por assunto, por gênero e por autor; além dos livros mais vendidos da semana e dos mais populares no período determinado. Na seção “O que Ler”, o usuário recebe sugestões da leitura mais se adequada aos seus gostos, bastando responder a um curto questionário antes de desfrutar.


“A ideia trouxe inovação para a internet em relação a informações culturais. Conheci o site através de um amigo e achei fácil de navegar. Nele eu posso encontrar mais livros sobre um assunto de meu interesse e escolher a próxima leitura. Também posso pesquisar preços e ter acesso a promoções”, afirmou o médico e leitor José Augusto Barros.


Segundo André Carvalho, é um site interativo voltado para os aficionados por leitura; um espaço para encontrar resumos, dar sua opinião sobre livros, participar de enquetes, acompanhar as novidades do mundo literário e até comprar livros através de sites parceiros. É um lugar também para os autores divulgarem gratuitamente a sua obra e biografia. “É de extrema importância para escritores, leitores e a todos interessados no Universo Literário. Com inteligência, faz a divulgação das obras e remete a uma democrática discussão sobre elas. É um canal de visibilidade, pois no site não constam apenas obras de escritores consagrados ou de livros que são fenômenos editoriais. Algo que faltava para nós, escritores, e para todos que estão descobrindo o amor pelos livros”, disse o escritor José Oliveira, autor dos livros Amargo Pecado e O Réu dos Sonhos.


A iniciativa dos estudantes está afinada com os propósitos do CIn no propósito de viabilizar parcerias entre a Universidade e a iniciativa privada, através de convênios para o desenvolvimento de pesquisas na área de Tecnologia da Informação (TI) e variados modelos de cooperação que incentivam a mudança na cultura da relação Universidade-Empresas e estimulam nos alunos o espírito empreendedor.

(Do site da Universidade Federal de Pernambuco)



segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Infância,Paulo Mendes Campos


Há muito, arquiteturas corrompidas,
Frustrados amarelos e o carmim
De altas flores à noite se inclinaram
Sobre o peixe cego de um jardim.
Velavam o luar da madrugada
Os panos do varal dependurados;
Usávamos mordaças de metal
Mas os lábios se abriam se beijados.
Coados em noturna claridade,
Na copa, os utensílios da cozinha
Falavam duas vidas diferentes,
Separando da vossa a vida minha.
Meu pai tinha um cavalo e um chicote;
No quintal dava pedra e tangerina;
A noite devolvia o caçador
Com a perna de pau, a carabina.
Doou-me a pedra um dia o seu suplício.
A carapaça dos besouros era dura
Como a vida — contradição poética —
Quando os assassinava por ternura.
Um homem é, primeiro, o pranto, o sal,
O mal, o fel, o sol, o mar — o homem.
Só depois surge a sua infância-texto,
Explicação das aves que o comem.
Só depois antes aparece ao homem.
A morte é antes, feroz lembrança
Do que aconteceu, e nada mais
Aconteceu; o resto é esperança.
O que comigo se passou e passa
É pena que ninguém nunca o explique:
Caminhos de mim para mim, silvados,
Sarçais em que se perde o verde Henrique.
Há comigo, sem dúvida, a aurora,
Alba sangüínea, menstruada aurora,
Marchetada de musgo umedecido,
Fauna e flora, flor e hora, passiflora,
Espaço afeito a meu cansaço, fonte,
Fonte, consoladora dos aflitos,
Rainha do céu, torre de marfim,
Vinho dos bêbados, altar do mito.
Certeza nenhuma tive muitos anos,
Nem mesmo a de ser sonho de uma cova,
Senão de que das trevas correria
O sangue fresco de uma aurora nova.
Reparte-nos o sol em fantasias
Mas à noite é a alma arrebatada.
A madrugada une corpo e alma
Como o amante unido à sua amada.
O melhor texto li naquele tempo,
Nas paredes, nas pedras, nas pastagens,
No azul do azul lavado pela chuva,
No grito das grutas, na luz do aquário,
No claro-azul desenho das ramagens,
Nas hortaliças do quintal molhado
(Onde também floria a rosa brava)
No topázio do gato, no be-bop
Do pato, na romã banal, na trava
Do caju, no batuque do gambá,
No sol-com-chuva, já quando a manhã
Ia lavar a boca no riacho.
Tudo é ritmo na infância, tudo é riso,
Quando pode ser onde, onde é quando.
A besta era serena e atendia
Pelo suave nome de Suzana.
Em nossa mão à tarde ela comia
O sal e a palha da ternura humana.
O cavalo Joaquim era vermelho
Com duas rosas brancas no abdômen;
À noite o vi comer um girassol;
Era um cavalo estranho feito um homem.
Tínhamos pombas que traziam tardes
Meigas quando voltavam aos pombais;
Voaram para a morte as pombas frágeis
E as tardes não voltaram nunca mais.
Sorria à toa quando o horizonte
Estrangulava o grito do socó
Que procurava a fêmea na campina.
Que vida a minha vida! E ria só.
Que âncora poderosa carregamos
Em nossa noite cega atribulada!
Que força do destino tem a carne
Feita de estrelas turvas e de nada!
Sou restos de um menino que passou.
Sou rastos erradios num caminho
Que não segue, nem volta, que circunda
A escuridão como os braços de um moinho


(Poema sugerido por internauta a quem  agradeço, com um  beijo.)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Aniversário do Pato Donald

Capa da 1ª revistinha em português

Em  julho de 1950 Pato Donald, um  dos maiores sucessos do mundo dos gibis,chegou ao  Brasil. Por isso a gibiteca de Santo André - SP estará  comemorando com uma exposição cuja abertura será dia 15 - domingo - a partir das 9h. O Evento organizado por Paulo Maffia contará com atividades diversas. O visitante poderá participar de jogos de RPG, desenhos animados, mostra e troca de revistinhas raras, dentre outras.
 Aniversário de Pato Donald
Local: Gibiteca de Santo André - SP
Biblioteca Nair Lacerda:Praça IV Centenário, s/nº - Centro - telefone: 4433-0763.

Quando: domingo dia 15/08
A que horas: 9 da manhã.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Capa de livro

Mário Lago, boemia e política -Mônica Velloso
Ed.fundação Getúlio Vargas
     Eu compro livro  pela capa?  Não lembro de ter comprado porém, também  não garanto que  não  tenha feito. Compro pelo  assunto, título, autor, indicação... e tenho certeza de já ter me encantado com  algumas capas, talvez tenha comprado por elas, não  duvido.
     Não gosto da padronização que algumas editoras fazem. Fernando Sabino e José Saramago têm suas capas padronizadas e eu não  gosto. Desconheço a razão das editoras fazerem isso e desconfio que, assim como eu, muita gente gosta de ver capas diferentes para um mesmo  autor.  
 A Ed.Cosac Naify faz umas capas caprichadíssimas. Pena não ter nenhum aqui  comigo para fotografar. Quem for mais atento, sabe pelo esmero da capa qual é a  editora.  A embalagem de qualquer produto serve também para despertar interesse pela compra. Como veículo de propaganda pode perfeitamente ajudar a alavancar as vendas. Mas, como qualquer sabão  em pó, pode também acelerar o  fracasso de um  autor. Belíssima capa envolvendo conteúdo ruim é uma dupla que não  combina. Toda editora sabe disso. Umas fazem capas cada vez mais caprichadas.
Mário Lago boemia e política -Mônica Velloso
Capa de:Sérgio Filgueiras

Se você conhece uma bela capa de livro ou se já comprou algum  exemplar por causa dela, conte aqui ou indique a capa.
Vou começar e aguardar sua sugestão.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Desfile dos Chapéus, Aníbal Machado


à Rubem  Braga

O comparecimento de todos os chapéus que tive e usei - não posso precisar se começou no  sonho e aí terminou, ou se no  sonho teve início e prosseguiu no  estado de vigília.
        Apresentando-se em  fila indiana ou  em  grupos, êsses chapéus se deslocavam com movimentos próprios, o  que tornava ainda mais  bizarra sua aparição.
       Os que vinham  em  grupo voavam baixo num  céu de chumbo - céu que se explica na visão onírica pela leitura dos jornais da véspera,  carregados mais que nunca de acontecimentos nefastos. E o  sonho daquela noite deixara de ser um armistício de repouso.
         Eu  sabia que das peças de indumentária o  chapéu é a  que mais transforma a figura do homem, a que mais perto priva de sua intimidade -consciência da vizinhança próxima do  cérebro, do  qual  absorve as irradiações. Enquanto nôvo, é um protetor, se não elemento  decorativo; depois de usado, vira documento moral.
        A recordação da lenda tibetana de um chapéu que o vento arrancara a alguém e projetara longe, numa campina, onde o  deixaram ficar, aí se transformando num ser vivo e demoníaco´- essa recordação de antiga leitura teria também influido como "conteúdo latente" do  sonho que se vai  referir.
       Foi o  caso que me senti levado, não  sei  como, a uma região severa onde entrei com a certeza de que  "não era ali".
      Cheguei mesmo  a repetir alto: - "não é aqui! não é aqui!"
      Não  era ali, o  quê? Pois não poderia ser ali?...
      Eu vagava numa paisagem fora de uso, com massas de sombra e árvores despidas. Qualquer coisa de cemitério abandonado, com movimentos e rumôres - assobios fininhos, cochichos, começos indistintos de vaia - em  desacôrdo com  a sua tranqüila grandeza. Havia Mesmo em  tudo uma malícia difusa, secreta intenção de fazer mal, zombar da gente...
     Ao fundo, colunatas e uma estátua de mármore num  espaço desolado como nos primeiros quadros de Chirico.
     Ao lado, como sempre, uma piscina- piscina que se coloca freqüentemente dos meus sonhos, tal um  túmulo aberto à minha espera. Várias crianças já mortas e esbranquiçadas retirei  dela...
     Passeava eu  então  distraido. A campina era florida. Não  sei  bem  se campina, corredor de casarão colonial ou praça pública, pois o  cenário mudava sempre, pôsto que sempre a mesma fosse a atmosfera.
     Eu procurava informações debaixo das pedras, atrás das colunas, no alto das árvores. Queria saber onde se conspirava contra mim. E como ventasse de maneira esquisita, pareceu-me que qualquer resolução já havia sido  tomada, tanto  assim que um  de meus antepassados vinha chegando, ouvindo-se bem  seus passos. Ao percebê-lo, reclamei que nada mais eu  tinha com  ele, que a vida agora era outra coisa; que até faria melhor se voltasse ao  túmulo donde não  deveria nunca ter saído. Só passou minha aflição, quando o vi  retirar-se resmungando... devia estar ressentido com  as minhas palavras, mas que fazer?
     A piscina me olhava sem parar. A luz baixou até mudar de substância e confundir-se com a do  silêncio. Tudo estava preparado para alguma coisa.
Foi quando passou o  primeiro  chapéu, ligeiro como um  ratinho. Estranhei-lhe a ligeireza, quando  é sabido  que os fantasmas caminham devagar e que as coisas do passado reaparecem lentamente como as cidades exumadas, e as velhas recordações.
       O chapéu seguiu na direção não  sei  bem se das docas de um pôrto invisível, ou se de alguma igreja em ruínas. Mal desaparecera  lembrei-me de que o  seu  jeito era familiar, e o reconheci depois de ter passado.
      Não  foi  com  certeza o primeiro que ganhei, mas era dos mais antigos. Usei-o  até o  fim, na fase capital da adolescência, quando  a cabeça que cobria abrigava idéias confusas, que me perturbavam. Lembrava-me de que não o havia tirado para ninguém. eu  era então ousado  e rebelde, e a vida parecia intacta ainda, pronta a me ser oferecida.
           Atrás do primeiro, outros chapéus iam aparecendo e desmontando o meu  passado.
           Com um  deles enterrado até às orelhas - aquêle de fêltro sovado que lá vai  rolando atrás do  veículo - andei pensando  dias e noites numa solução que afinal não  tomei, porque o barranco era alto  e me faltou coragem. Certa vez,  e ainda me ardia a juventude, não  resisti à tentação de saber o  fundo do mistério. Mas do barranco  fatal que ia servir de passagem, recebi  a advertência: "agora não, bôbo! Nem  há espaço para ti; experimenta primeiro  a vida... ainda não  tens direito à morte".
         Seria de fato um  absurdo: se nasci foi mesmo para viver. Atirei apenas o palhêta. E voltei para a vida.
         Deram-me outro  chapéu, e é êsse quem  vem  se aproximando com movimento  de dança, enfunado como  vela que impele os barcos.
         Debaixo dêle é que te pudes apreciar melhor, sombra enorme do mundo. Sob as suas abas meus olhos se dilataram de espanto, minando água que era resina do íntimo fervor.
A cabeça que êle então  abrigava acendia-se como lâmpada que via sem  ser vista.
(Foi no  tempo em  que era fácil conversar com as pedras,ouvir as árvores, privar com os rios, os animais, o vento- tempo em  que as imagens do mundo se descobriam pela primeira vez. Inauguração do universo!... eu ainda nem  sabia a linguagem dos homens!)
        Êsse chapéu presidira ao meu  casamento com as coisas.
        Mas outros estavam  surgindo. Passavam perto, davam uma voltinha. Havia vento de combinação  com  eles, que  soprava sem  direção certa, empurrando-os ou recolhendo-os. Cada qual tentava mostrar um trecho de biografia, um momento do  que por mim fôra pensado e vivido.
       Não conseguia mesmo saber se era com  espírito cordial que faziam essa exibição retrospectiva, ou se vinham com ar de sarcasmo ridicularizar um passado que afinal nem  valeu a pena.
      Chapéus bem  sujinhos e miseráveis, os dêsse tempo...
      O que se passa no homem, debaixo de seu chapéu!...
      Desde o começo, o ambiente era mais de vaia do que de apoteose.
     Tu, por exemplo, cartola, que vieste fazer aqui? Caíste da lua? algum dia te botei?... Ah, botei sim, uma vez...Eras apenas um  simples aparelho de produzir autoridade. Eu vivia então contra mim. O que te ofereci foi uma cabeça vazia.
Então me sentia importante e, inefável imbecil, sorria para a multidão que aplaudia os grandes da arquibancada, dentre os quais eu  era tomado como  tal. Nem sei como foi  aquilo...
Como havia excesso de grandes homens naquela tarde, mandaram-nos para o porão e o  telhado, de onde ouvimos o hino  cívico.
        Nessa tarde, uma chusma de chapéus arruaceiros (chapéus ou crianças?) cercava a aparição da cartola. No meio, sobressaia um palhêta impossível. O chapelinho magricela não deixava em paz a velha cartola. Depois, quando esta virou casca de inseto, as formigas a foram transportando para um  cemitério de cartolas, que os urubus sobrevoavam no  fundo da paisagem.
       Surgiram em seguida os chapéus que andei tirando para todo mundo. Pareciam aborrecidos da vida. Reuniam-se em  tôrno de um  velho guarda-chuva que era só pele e ossos. Êsse grupo vinha em  romaria ao  seu antigo  dono. Eu era então o falecido. E estava explicada, assim, a presença ali da piscina-sepultura, sôbre a qual boiavam, como fôlhas secas, boinas, bonés e toucas da primeira idade.
        Depois disso (será que já vivi tanto?) chapéus em  profusão, todos os chapéus do  passado apareceram em  vagas sucessivas.
        O céu coalhara-se dêles. Soltavam-se. Nos que passavam perto e devagar eu me reconhecia.
       Olha aquêle com  que fiquei esperando resposta; o  que me ajudou a chocar a ideia maluca; o  que fiz de travesseiro; o com que neguei o  cumprimento a certos sujeitos; o com  que matei a sede num  córrego; o  que fêz sombra para um pensamento literário; e êste outro,ainda molhado de chuva, com  que esperei a amada no portão;e êste outro que me  deu um ar tão bestinha; o  que enterrei com  raiva na cabeça; o  que me ajudou a fugir, de madrugada; o  que durante a perseguição me serviu de barraca e esconderijo; o  que  amarrotei nas mãos trêmulas, ao  fazer o pedido; o  com que conspirei no  fundo  do  bar; o  que voou pela janela do  trem; o  que joguei como um  coração arrancado aos pés da amazona, no  circo. E êsse outro que um  dia tirei com  alegria, para saudar a vida!.
     Ah! chapéus... com as cicatrizes do vento, do  suor, das chuvas, da lágrimas!... Aquêle, furado, que vem  oscilando como um  bêbado, cheguei  a estendê-lo a um  rico, numa tarde de chuva. E, envergonhado, êle se recolheu a si mesmo antes de receber a esmola.
     "Chapéus dos maus o bons momentos, refazendo a história de uma vida revogada -a cabeça que um  dia cobristes vira-se agora para o lado onde nascem  as coisas, onde a vida recomeça. A gente aprende enfim a transformar a dor em  alegria e incorporando-se a tudo e tudo  absorvendo, acaba confundindo-se, anônimamente, na substância da criação.
       É tempo, chapéus, de fechar-se o ciclo da estupidez, tempo também de o "eu", cabina infecta, libertar-se das insignificãncias que tiranizam a criatura. Quem  quiser salvar-se, destrua antes o seu inimigo privativo, Esqueça-se de si mesmo. Chapéus, a vida começa enfim  a valer a pena!"
      Mal iniciava eu êste discurso,certos movimentos me fizeram  suspeitar que outra vez velhos chapéus começavam a zombar de mim. Pelo menos, brincando  estavam. Debaixo de cada um  se colocava uma imagem de minha figura segundo as metamorfoses da idade.
      Diversos manequins  risíveis, em  farândula, puxavam a minha forma precária até o presente; - eu , alvoroçado, descendo a ladeira a caminho  da cidade; subindo-a  depois, de cara fechada; eu aflito; ridículo, querendo  chorar, pondo de nôvo o  chapéu para outras partidas; saudando os amigos; parado na esquina, como um basbaque; na praça; caminhando para o  encontro proibido; querendo entrar em  festas; nos enterros; sonhando  nos bancos; esperando  a môça; eu, envaidecido a dizer e ouvir  bobagens; com o  chapéu do conflito; com o  chapéu que enchi de frutas; com o  chapéu com  que fui  vaiado...chapéus da adolescência e da maturidade, variações de meu  ser moral e histórico, desdobramentos de minha figura...
    Cada um de nós se inscreve nos objetos que usa. Estou também nos meus chapéus. E os meus, antigos, estão compondo numa só imagem as diversas imagens do homem que ora assiste à passagem dêles.
    Uma cidade nublada. Entro numa rua sem  nome.
    - Madame, aqui é o  29? Esqueci o meu  chapéu... não  se assuste minha senhora... é um  simples chapéu... não é nenhuma bomba. Por favor... está sentindo  alguma coisa? a senhora parece desgraçada, tão  triste... E tão  bonita...Meu Deus!... Não  querererá fugir no meu  chapéu? seremos felizes...
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    - Olha o chapéu, cavalheiro, a procissão está passando...
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     - Não  está ouvindo?  é o Hino  Nacional. Vem  aí o  chefe, tira o  chapéu, seu idiota!
     Havia também chapéus no 71 e no 138. De que rua e cidade não  sei  dizer. E chapéus que foram  esquecidos nos cafés, nos bondes, nos bancos de trem  de ferro, nos consultórios, nas praias. Chapéus que vinham dos subúrbios e dos campos.
     E êsses que não tomaram parte no  desfile e se deixaram ficar pelas pontes e à beira de viadutos, na mesma posição  em  que foram  abandonados?
    Chapéus de suicida, se eu estivesse perto agarraria o desesperado pelo  braço: "Homem, não  será preciso  tanto; escureceu um pouco para ti, mas foi um minuto; é porque a claridade está se abrindo mais adiante; corre para lá, pega o  teu  chapéu.
A vida continua."
   Outros foram moídos sob rodas de caminhão, ou fugiram pelo  asfalto a fora, os donos atrapalhados correndo atrás. O grosso dêles, porém, fazia evoluções. Vi-os escorrendo por um  water-shoot, ondulando num  vagão de montanha-russa, correndo pelas estradas: - chapéus da
mocidade. Pode ser que me enganasse, mas nesse momento mais pareciam borboletas, só faltavam gritar de alegria. Quereriam dar-me nova lição de vida?
   Chapéus da era otimista, podeis chegar! Eu também mudei.
Já disse que aprendi com  a vida. Estou livre, não me escondo mais, tirei para sempre o  chapéu...
    Mas êles me evitam. Não precisam mais pousar na cabeça de ninguém. Brincam  se atropelando uns aos outros. Livres, também.

    Abandonado  agora numa planície sem  fim.
    E os chapéus? pergunto. Sumiram-se. Sumiram-se também as piscinas e colunatas. Fiquei  esperando.
    Um mar, um mar escondido na neblina desde o princípio, começa a subir lentamente. E à superfície afloram detritos do passado, velhos sapatos, roupa usadas. coisas sujas,vergonhosas coisas vêm chegando de mais longe na água de gosma e pútridos reflexos.
    A neblina se dissipa. No  fundo, coqueiros, índios construindo malocas, garimpeiros explorando rios.
    Espaço  da memória ancestral, mergulho os olhos em  teu  vazio.
    E eis, no horizonte, todos os chapéus de outrora, em  formação completa, despedindo-se de mim... pela última vez "tirando-me o chapéu"...




(Do livro: A morte Da Porta-Estandarte e outras hoistórias-Ed. José Olímpio 4ªedição- 1972)


Nota: o blog manteve a grafia original.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Zaratustra em quadrinhos...

     Profeta de nome Zaratustra, descendo das montanhas  prega  os princípios de Nietzsche que são mais conhecidos, como por exemplo "a morte de Deus". Esse profeta que passou 30 anos no  isolamento pregará pelo mundo a vinda de um  super-homem capaz de criar seus próprios valores, e será dissociado de sua condição  animal. Profeta polêmico, sem  dúvida.
     A ousada adaptação é de Thais dos Anjos, designer brasileira da revista Playboy. A autora e a Publifolha brindam o leitor com: Assim Falava Zaratustra: dos céus aos quadrinhos.
baseado no  texto de Friedrich Nietzsche. Vale conferir.
Assim Falava Zaratustra: dos céus aos  quadrinhos
Thaís dos Anjos
Editora: Devir
Páginas: 112

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Assim Eu Vejo a Vida, Cora Coralina

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

           Cora Coralina, nascida em 20 de agosto de 1889 Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas é autora de:
Meninos Verdes (infantil)
                                                       A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil)
                                                         Vintém de Cobre
                                                       As Cocadas (infantil)