quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Secreta Beleza, Elisa Lispector

    Era  tarde quando entrei no quarto para olhar o menino, que demorava adormecer.

    Através da janela aberta, ouvia-se o marulho das ondas. A cálida noite de verão parecia mover-se em ondulações, como se a terra tivesse sido invadida pela inconstância do mar.

    Por momentos, eu própria oscilei qual uma flor sobre a tenra haste, ou, por analogia com a atmosfera marinha, como uma vela à aragem, em dúvida sobre o que mais efetivo,se o oceano, a banhar de costa a costa o planeta inteiro, se a terra, vista do mar, devia parecer algo remoto, inatingível.

    De súbito, à meia-luz da pequena lâmpada de cabeceira velada por um “ abat-jour”, tive a atenção despertada para o que a princípio assemelhava- se a uma mariposa cinzenta, de asas finas, quase transparentes, mas que aos poucos ia crescendo em tamanho e beleza. Para meu espanto, também mudava de forma. A fina película das asas ia-se transformando nas cartilaginosas barbatanas de um peixe-voador, que ondeava no espaço o corpo alongado e esguio, enquanto articulava as barbatanas flexíveis irisadas de azul-turquesa, e logo a seguir transmudava-se num pássaro maravilhoso que a cada momento aumentava em esplendor.

    Com a respiração suspensa, temendo que um simples suspiro a magia deixasse de ser, eu acompanhava, atenta, a estranha metamorfose.

    Eu já nem olhava mais a criança, a tal ponto estava fascinada pela mariposa-peixe, ora pássaro singular que a cada minuto se ia enquadrando mais na sua condição de pássaro, e voava de um lado para outro a exibir a rica plumagem

    -Tu é maravilhoso! Exclamei, tão feliz quanto nunca antes estive em toda a minha vida, pareceu-me.

   - Sou sim, respondeu, para meu espanto, o pássaro em voz doce e modulada, enquanto se empoleirava sobre o espaldar da cadeira bem em frente a mim, e enchia o peito, a mostrar a penugem de um azul profundo quase beirando o negro luzente, em contraste com o azul-claro e brilhante das asas, e abrindo a cauda cujas plumas se tingiam de tons cintilantes, formando desenhos de variegados feitios.

    -Vou adotar-te. Serás meu! Anunciei-lhe, mal cabendo em mim de tanta alegria.

    - Serei, sim, retrucou a ave com uma presteza e uma ressonância tão doce que nem cuidei de indagar se leal e verdadeira.

     - Comprar-te-ei um linda gaiola, acrescentei, impelida pela instintiva necessidade de resguardar o meu tesouro.

     - Vai, sim, respondeu-me o pássaro num tom que já me pareceu meio reticente.

     Nesse momento, não sei de onde surgiu no quarto uma mulher, como a adivinhar que eu precisaria de ajuda. Pedi-lhe que ficasse com a criança e o pássaro, que a esse tempo eu já considerava meu.

     A mulher era morena, cabelos negros e lisos, feições severas que me  inspiraram confiança.

     -Pois ficarei, assegurou-me. Pode ir descansada.
     Saí não sem antes fechar a janela para resguardar o meu pássaro, enquanto ele me olhava de viés e e continuava a ostentar a bela plumagem, consciente do fascínio que exercia sobre mim.

     Bati a porta e desci a escada com tanta agilidade e leveza que mal sentia os pés tocarem os degraus. Lembrara-me de que o porteiro do edifício possuía uma gaiola. O que não sei é por que, para falar-lhe, tive de sair do prédio e enveredar por ruas e mais ruas, em cujo labirinto me perdi, no ermo da noite.

    Quanto vaguei nas trevas, meu Deus! E que tristeza, a que pouco a pouco foi invadindo meu coração! O corpo todo me pesava Tanto andei que mal podia mover as pernas trôpegas.

    - Que infortúnio este, que se abateu sobre mim? –perguntava-me. Por que esta dificuldade, este desalento? Esta sensação de abandono?

     Só voltei para casa muito tarde, quando as sombras da noite já se iam diluindo naquele cinza denso e oprimente que precede o lento e indeciso despertar do dia.
Vinha cansada, inteiramente esquecida de ao que tinha ido e ao que tinha tornado.

     Ao entrar no quarto vi a criança dormindo. A mulher havia ido embora.Enganara-me, dizendo que me esperaria, pensei, reatando a memória de antes de sair à rua.

     E em vez de pássaro, e da inicial e mútua alegria que nos havíamos proporcionado através das invocações minhas e receptividade dele, vi na parede uma pequena mariposa acinzentada, com umas riscas de cor aqui e ali. Tão diferente da outra mariposa-peixe-pássaro raro, que me ocorreu a comparação entre uma bela princesa hindu, ataviada com ricos e multicoloridos trajes de pura seda, adornada com jóias recamadas de pedras preciosas, e uma camponesa nas suas pobres vestes de chita e enfeites de latão.

     A princípio até senti certo alívio ao pensar que não mais chegaria a utilizar uma gaiola, idéia que sempre me repugnou.

    - Mas, perguntava de mim, e a perdida beleza?
    Só muito devagar fui saindo da inconsciência do sono. Ainda de olhos fechados, tentei reconstituir a imagem do pássaro que se ia diluindo como se esvanecem todos os sonhos, para, afinal, compreender que os instantes de verdadeira beleza são escassos e efêmeros, e tão secretos e sutis que não se os pode traduzir muito menos captar.