quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quarta-feira é dia de conto: O Cunhado de São Pedro


       Era um velho que tinha uma filha e três filhos. Um dia, apareceu um rapaz que lhe pediu a filha em casamento. Assim que acabou de se casar pegou a mulher e foi-se embora com ela, sem querer que a moça levasse nada, nada, da casa do pai. Só mesmo a roupa do corpo foi o que ela levou. Porque o rapaz era São Pedro, portanto não havia de conduzir para sua casa coisa que tivessem ranço de pecado.
      A moça vivia muito bem. Porém, tinha um desgosto: era que o marido não passava um dia que fosse em casa, pois sendo pastor de ovelhas não podia nunca deixar de levar os animais para o pasto. O irmão mais velho da moça indo visitá-la, ela contou-lhe isso. Então o rapaz esperou que o cunhado voltasse. Quando foi de noite, que ele chegou, disse:
      - Cunhado, minha irmã se queixa de que você desde que se casou ainda não pôde parar um dia que fosse, em casa, por causa das ovelhas. Eu amanhã vou pastorar elas e o cunhado fica em casa.
      São Pedro disse que sim. Quando foi no outro dia de manhã, chamou as ovelhas e entregou-as ao cunhado, recomendando-lhe que por onde elas passassem ele passasse também; onde elas parassem, ele parasse também; de tarde, quando elas voltassem, ele voltassem também. Aí, as ovelhas partiram, seguindo o rapaz no coice do rebanho.
Depois de caminharem muito, chegaram à beira de um grande rio, sobre o qual tinha uma ponte que era formada por uma espada de prata, de gume para cima, afiado que nem navalha. As ovelhas meteram o pé e passaram. Quando o rapaz viu aquilo disse:
      - Qual! Quem é que vai passar aqui por cima? Eu, não!
      Sentou-se debaixo de um pé de árvore, na beira do rio, e ficou bem de seu, o dia inteiro. Entretanto, São Pedro que o vinha acompanhando de longe, passou por ele sem ser visto e seguiu atrás das suas ovelhas. Quando foi chegando de tarde, lá vêm as bichinhas. Assim que elas chegaram perto da ponte, São Pedro se escondeu. Logo que passaram a ponte o rapaz enfiou atrás delas. Ao chegar em casa, São Pedro já estava lá bem desencalmado.    Perguntou ele:
      - Então, cunhado, como se foi?
      -
Eu, bem.
      – Acompanhou os animais até no pasto?
      - Acompanhei, sim.
      – E não viu nada no caminho?
      - Eu, não.
      – Então não viu nada?
      - Eu, não.
      Disse São Pedro à mulher que seu irmão não servia e mandou-o embora. No dia seguinte veio o segundo cunhado e fez o mesmo que o primeiro. No terceiro dia veio o caçula, ao qual São Pedro fez a mesma recomendação que fizera aos outros dois. Respondeu-lhe o rapazola com firmeza
:
     - Deixe estar, cunhado. Não tenha medo.
     São Pedro, não satisfeito, acompanhou-o de longe, como tinha feito com os dois mais velhos, espiando-os. Quando as ovelhas chegaram à beira do rio, que passaram pelo gume da espada, o rapaz ficou olhando, e disse:
      - Assim como vocês, ovelhinhas, bichinhos de Deus, passaram, e esta espada não vos ofendeu, eu também hei de passar e ela não há de me ofender.
     Mal foi botando o pé na espada e esta virando-se numa ponte, passando ele perfeitamente. Quando São Pedro viu isso voltou logo para casa, para passar o dia com sua mulher, porque compreendeu que o cunhado daria conta do recado.
     Chegando mais adiante, viu o moço duas pedras enormes que batiam uma na outra, lançando faíscas de fogo ao redor, que fazia medo. As ovelhas passaram entre as duas pedras, sem nada sofrer. O rapaz também passou. Com muito receio, mas passou. Quando chegou mais longe, estavam dois leões, que eram uns monstros, brigando em termo de se acabar, arrancando-se os pedaços, de danados que se achavam. As ovelhas passaram entre os dois leões. O rapaz também passou. Andando um bocado, encontrou um campo coberto de capim muito verde e viçoso, onde estavam pastando uns cavalos tão magros, que estavam se quebrando pela espinha. Passaram as ovelhas e o rapaz as seguiu. Depois encontrou um campo coberto de capim seco, esturricado, e uns animais muito gordos, muito bonitos, pastando. Passaram as ovelhas e ele. Mais além deu numa fogueira enorme, donde saía cada língua de fogo que parecia um fim de mundo. As ovelhas meteram o pé dentro daquela labareda toda, passando sem se queimar. O rapaz fez o mesmo. Finalmente deu num jardim, que era uma babilonha de grande, bonito que era uma maravilha, onde as ovelhas pararam então, começando a pastar.
     O rapaz ficou abismado de ver tanta flor, tanta roseira vindo abaixo de rosas. Então disse:
     - Eu vou apanhar umas rosas para levar à minha irmã. 
     Começou a colher rosas. Colheu, colheu, e foi botá-las dentro do chapéu, voltando para colher mais. Tornando a ir botá-las dentro do chapéu só encontrou ali cinco rosas. Disse:
- Ora, senhor, as ovelhas me comeram as rosas!
     Foi buscar outro bocado de rosas, botou dentro do chapéu e tornou a ir buscar mais. Voltando, só encontrou cinco rosas dentro do chapéu. Estava nessa lida, abaixo e acima, quando viu as ovelhas se prepararem para voltar para casa. Aí, ele agarrou no chapéu e nas cinco rosas, acompanhando as ovelhas. Ao chegar em casa, São Pedro o recebeu muito satisfeito.
     Jantaram, conversaram muito e por fim São Pedro perguntou-lhe o que havia visto no caminho. O moço referiu tudo quanto se passara. Então São Pedro explicou-lhe: as ovelhas eram as almas dos bons; o rio, com a ponte de prata, era o Jordão, onde São João batizou Cristo; as duas pedras e os dois leões, as comadres e os compadres que brigam neste mundo e quando morrem vivem eternamente a brigar no outro; os cavalos magros pastando no campo verde, os ricos ambiciosos, que vivem neste mundo na abundância, sem nunca estarem fartos de dinheiro; os animais gordos pastando no campo seco, os pobres fartos por natureza; a fogueira, o purgatório; o jardim, o paraíso; e aquelas cinco rosas, as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Depois de dito isso, São Pedro lavou os pés da mulher, lavou os do cunhado, botou os dois nas palmas da mão e subiu com eles para o céu.

(http://www.jangadabrasil.com.br/revista/setembro82/links.asp)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Segunda-feira poética: Prece do Amazonense em São Paulo, Milton Hatoum

Teatro Amazonas
Prece do Amazonense em São Paulo
Milton Hatoum


Poema inspirado em Carlos Drummond de Andrade

Espírito do Amazonas, me ilumina,
e sobre o caos desta metrópole,
conserva em mim ao menos um fio
do que fui na minha infância.

Não quero ser pássaro em céu de cinzas
nem amargar noites de medo
nas marginais de um rio que não renasce.

Teatro Amazonas, início da construção:1884,
inauguração em 1886
O outro rio, sereno e violento,
é pátria imaginária,
paraíso atrofiado pelo tempo.

Amazonas:
Tua ânsia de infinito ainda perdura?
Ou perdi precocemente toda esperança?
Os que te queimam, impunes,
têm olhos de cobre,
mãos pesadas de ganância.

Ilhas seres rios florestas:
o céu projeta em mapas sombrios
manchas da natureza calcinada.

Tento abraçar a imagem fugidia
de um barco à deriva no mormaço
com os mitos que a linguagem inventa.

Espírito amazonense, tímido talvez,
e desconfiado para sempre,
não me fujas em São Paulo,
nem me deixes à mercê
dos pesadelos que incendeiam o mundo.

Se o Brasil te conhecesse
antes do fim que se aproxima,
salvaria tua beleza? Teus seres desencantados?
Entenderia a ciência tua infinita riqueza?

Milton Hatoum - clique na imagem para conhecer o autor.
Abre a janela de um barco
ante meus olhos,
e que ao teu profundo rio conduza
a memória de línguas estranhas
e tantas histórias ocultadas:
Amazonas.

(Publicado na Revista Amazônia, O Estado de S. Paulo, domingo, 25 de novembro de 2007).


 

sábado, 25 de junho de 2011

Crônica cantada:Bolsa de Grife - Vanessa da Mata



Bolsa de Grife
Vanessa da Mata
Comprei uma bolsa de grife
Mas ouçam que cara de pau
Ela disse que ia me dar amor
Acreditei que horror
Ela disse que ia me curar a gripe
Desconfiei mas comprei
Comprei a bolsa cara pra me curar do mal
Ela disse que me curava o fogo
Achei que era normal
Ela disse que gritava e pedia socorro
Achei natural

Ainda tenho a angustia e a sede
A solidão, a gripe e a dor
E a sensação de muita tolice
Nas prestações que eu pago
Pela tal bolsa de grife

Nem pensei
Impulso
Pra sanar um momento
Silenciar barulhos
Me esqueci de respirar

Um, dois, três
Eu paro
Hoje sei que tenho tudo
Será?
Escrevi em meu colar
Dentro há o que procuro

Meu amigo comprou um carro para se curar do mal

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quarta-feira é dia de conto:Caminhos Paralelos

Caminhos  Paralelos

     O trem parou na estação. Liliana na fila, ansiosa, com sua bagagem de mão, não via a hora de embarcar, pra fazer a tão esperada viagem e chegar ao tão esperado destino.
O trem parou na estação. Leonor na fila, olhava para trás e via os arranha-céus que se acavalavam no pouco espaço do centro da cidade e sentia um vazio e um aperto no peito. Não conseguia parar de pensar em ficar. Não queria ir…
Cabine 35 dizia o bilhete, janela, para poder ver a natureza, o campo, as flores silvestres, os belos plátanos que acompanhavam os trilhos paralelos até um certo ponto.
     No bilhete marcava a cabine de n° 35, “espero que não seja janela”, pensava Leonor, que queria aproveitar o tempo da viagem para ler as últimas páginas do livro e começar o próximo que ganhara de presente do André.
Liliana colocou sua mala no lugar, seu travesseiro na cama, pois o pernoite seria no trem, pôs as flores e o vaso sobre a mesa, deixou o pijama sobre a cama e saiu da cabine, indo ao restaurante .
     Leonor entrou e viu que um lado já estava ocupado, adonou-se da outra cama, mais longe da janela, colocou os livros sobre a cama, pegou o que estava lendo e foi ao bar, sentou na mesa 13, pediu uma água e pôs-se a ler.
Já devidamente alimentada, Liliana voltou à cabine, puxou a cadeira até a janela, estava anoitecendo e ficou observando a paisagem, ouvindo o cantar dos pássaros e o som característico do rodado do trem nos trilhos. Meia hora se passou e foi deitar-se, estava cansada e logo adormeceu.
     Leonor não jantou. Pediu um sanduíche e uma Pepsi-cola , degustou e voltou a cabine. Viu que alguém dormia, mas não conseguiu reconhecer pois seu rosto estava encoberto. Fazia frio. Deitou-se e ainda leu algumas páginas sob a luz do abajour.
Liliana acordou cedinho, tomou seu banho, vestiu-se e percebeu que alguém dormia, suavemente, na outra cama. Saiu e foi tomar seu café da manhã.
     Leonor acordou, olhou em volta, olhou pro relógio e percebeu que a viagem estava perto do fim, viu a cama arrumada e a mala sobre ela, mas a pessoa já saíra. Pegou sua mala, os seus livros, saiu da cabine e no corredor alguém apressado esbarrou nela. Os livros cairam, elas se entreolharam, agacharam-se a pegar os livros e cada uma continuou sua caminhada.
     Liliana voltou correndo do restaurante e no corredor esbarrou numa moça que carregava uns livros, apanharam-nos e nem deu tempo de pedir desculpas, pois o trem já estava parando e a ansiedade por descer era imensa.
Eram 11:00h AM. Os passageiros desceram do trem e…
- Táxi
-Táxi
    Liliana e Leonor, lado a lado, chamando o táxi. Olharam-se e lembraram do fato ocorrido no corredor do trem e gargalharam. O táxi parou, entraram, as duas, Rua Tal, nº Tal, disse a Liliana. É o mesmo endereço que vou trabalhar, disse Leonor e riram novamente, muito. Descobriram muitas coisas em comum no pouco tempo que conversaram e até sobre os desencontros no trem, na cabine em que dormiram juntas.
- Chegamos disse o motorista.
Desceram e lá estava a casa onde iriam trabalhar:

Abraçaram-se e foram, gargalhando,
em direção ao novo lar,
ao novo trabalho.
(Do site:www.movidoavapor.com)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Horóscopo poético: Câncer: 21 de junho a 20 de julho,Vinicius de Moraes



Câncer
Vinicius de Moraes
Você nunca avance
Em uma mulher de câncer.
Seu planeta é a lua
E a lua, é sabido,
Só vive na sua.
É muito apegada
E quando pegada
Pega da pesada.
É a mulher que ama
Com muito saber
No tocante à cama
Não sei lhe dizer...


(Com o signo câncer, o blog LivroErrante encerra a publicação dos versos de Vinicius de Moraes iniciada em julho de 2010 com Leão).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Juriti, Cassimiro de Abreu


Na minha terra, no bulir do mato,
A juriti suspira;
E como o arrulo dos gentis amores,
São os meus cantos de secretas dores
No chorar da lira.

De tarde a pomba vem gemer sentida
À beira do caminho;
— Talvez perdida na floresta ingente —
A triste geme nessa voz plangente
Saudades do seu ninho.

Sou como a pomba e como as vozes dela
É triste o meu cantar;
— Flor dos trópicos — cá na Europa fria
Eu definho, chorando noite e dia
Saudades do meu lar.

A juriti suspira sobre as folhas secas
Seu canto de saudade;
Hino de angústia, férvido lamento,
Um poema de amor e sentimento,
Um grito d’orfandade!

Depois... o caçador chega cantando.
À pomba faz o tiro...
A bala acerta e ela cai de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.

E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-á consigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sozinho, a voz desfalecida,
Dormir no meu jazigo.

E — morta — a pomba nunca mais suspira
À beira do caminho;
E como a juriti, — longe dos lares —
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho!

Para o amigão Luiz, com um abraço.


Cassimiro de Abreu em caricatura de
André Lemes

Cassimiro José Marques de Abreu
04 janeiro 1839, Barra de São João (RJ) - 18 outubro 1860,Friburgo (RJ)
Escola literária: romantismo
Obras mais importantes:
Primaveras (1859) - Poesias
Meus Oito Anos - Poesias
Camões e o Jau" (1856) -Teatro
Cassimiro de Abreu é o patrono da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras ocupada atualmente por Cícero Sandroni.

Fonte:
http://www.dominiopublico.gov.br/,
www.wikipedia.com.br
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/casimiro-de-abreu/casimiro-de-abreu.php

sábado, 18 de junho de 2011

Crônica cantada: História de Lily Braun, Chico Buarque e Edu Lobo.


Chico Buarque e Edu Lobo
Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom
Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de pose em pose
Fui perdendo a pose
Até sorrir feliz
E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão foi desde então
Ficando flou
Como no cinema
Me levava as vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues
Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris
E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buque
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turne
Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fernando António Pessoa Nogueira - Por ele mesmo

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1888.
Filho de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.(resumido pelo blog)
Estado civil: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será "tradutor", a mais exacta a de "correspondente estrangeiro" em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: "35 Sonnets" (em inglês), 1918; "English Poems I-II" e "English Poems III" (em inglês também), 1922; livro "Mensagem", 1934, premiado pelo "Secretariado de Propaganda Nacional" na categoria Poema". O folheto "O Interregno", publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da Ordem dos Templários de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação".
Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.


In Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2003, pp. 203 - 204
(O blog fez edição por questão de espaço)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Quarta-feira é dia de conto:Fronteira

Fronteira

“Que estranho” – pensava - “Mudam de pele todos os dias!”
Ainda se adaptava aos seus novos amigos.
Tinham-no acolhido depois do seu companheiro de longos anos ter sido levado num carro amarelo com luzes azuis.
Nesse dia ficara ali a olhar. Correu atrás do carro até à exaustão. Ninguém lhe ligava. Vagueou pela cidade e regressou ao parque onde vivia com o seu companheiro.
Outros homens, estes vestidos de azul escuro e não de branco como os que tinham levado o seu companheiro, removiam os seus haveres.
Deitou-se à sombra de uma árvore, triste, só.
Quem lhe iria fazer companhia? Quem iria dividir com ele a comida? Notou que tinha fome e foi à procura de comida.
Já sem forças, depois de percorrer meia cidade, vê um portão aberto. Espreita.
Do lado de lá, um jardim. Bem cuidado, relva verde acabada de cortar. Dá um passo.
“Ping, ping...” – ouve água. Sedento da caminhada, segue o som. Entra sem hesitar.
O jardim é belíssimo. Mais bem cuidado do que o parque onde vivia com o seu companheiro levado pelos homens de branco num carro amarelo e luzes azuis. Não entendia porque é que este jardim não estava cheio de gente como o parque, principalmente num dia de sol como aquele.
Bebe e, sem forças, à sombra do frondoso plátano sobre a relva verde recém cortada, deixa-se dormir.
Sonha com o seu companheiro e amigo desaparecido.
Desde as suas mais antigas memórias, quando outro carro levara a sua mãe, não se separara dele. Ouvia as suas longas histórias à noite no parque sob o calor da sua mão. Sonhava que o seu companheiro cantava ao som da guitarra com apenas quatro cordas. Ouvia-o rir-se dele, de si mesmo, dos que passavam.
Exploravam o parque e a cidade. Sem horas. Fugiam dos carros azuis de luzes azuis, como quem joga às escondidas. Brincavam, corriam e riam. Amigos fiéis. Companheiros eternos.
Acorda com o som do portão que se fecha. Vê quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. Tenta esconder-se mas antes de chegar ao arbusto é visto.
Baixa a cabeça, olha para o chão como se tivesse sido apanhado a cometer o pior dos crimes.
“ – Meninos, já para dentro!” – disse o homem.
“ – Pai, parece tão triste e está tão magrinho...”
“ – Mas está sujo e pode estar doente, por isso lá para dentro!”
“ – Pai, tem fome, não o podes mandar embora assim...”
Ao ouvir a voz da criança, olha para ela. Levanta a cabeça e dá um passo. O seu olhar, no entanto, mostra uma enorme tristeza.
“ – Pai, deixa-o ficar, Queremos brincar com ele.”
“ – Sim pai, deixa lá, deixa, deixa!...”
A mãe esboça um sorriso.
“ – Vou preparar-lhe um banho e algo de comer. Tens fome não tens?”
Não se lembrava do seu último banho, ou se alguma vez tinha tomado um. Não gostou muito de entrar na água, mas aquela mão macia que o acariciava, a voz quente daquela senhora e a alegria constante daqueles meninos davam-lhe uma sensação de conforto e de carinho.
Deram-lhe comida. Comida só para ele. E muita. Daria para uma semana, talvez duas!
Duas semanas passaram. Agora dormia sob um tecto. Tinha comida todos os dias. Brincava com os meninos.
“ – Esta gente é estranha, boa mas estranha. Come a horas certas, saem de manhã cedo e só regressam ao fim da tarde. Não me deixam ir além do jardim e da cerca para explorar o que há do lado de lá. Sentam-se em frente à caixa das luzes e dos sons em vez de ir brincar e conhecer o mundo com os seus cheiros, os seus sons e as suas cores, como o fazia no parque” – sim, a caixa mágica tinha cores e sons, mas não tinha cheiros.
Olhava para eles. Observava-os. “ – Que estranho” – pensava – “Mudam de pele todos os dias!”
Estava grato a esta gente, a sua nova família, mas tinha saudades. Saudades do seu companheiro, de explorar o mundo, de não ter horas, de nunca estar só, de fugir dos carros azuis das luzes azuis como quem joga às escondidas, de ouvir histórias, de ouvir cantar.
Além de lhe mudarem os hábitos, mudaram-lhe o nome. Agora era Bobby. Antes era Mawgly, mas também a este se habituara.
http://oscontosdomeloes.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Rio da Minha Aldeia - Tom Jobim e Fernando Pessoa


Clique na imagem para ouvir a música
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.http://som13.com.br/antonio-carlos-jobim/albums/perfil-vol2/o-rio-da-minha-aldeia

Aniversariante do dia: Fernando Pessoa


A Outra
Amamos Sempre no Que Temos
 
<> <>
AMAMOS sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora e minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Outra.
Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.

Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
E poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.

Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?

Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nos recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.

Mas não, nem onde essa paisagem É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.

Ah, por ora, idos remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o ter ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.


Este blog vai trazer Fernando Pessoa e seus heterônimos nas quintas-feiras dias: 16,23 e 30 de junho

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos namorados.



A vocês, Flávio e Maria, que já me comoveram às lágrimas pela maturidade com que superam obstáculos pessoais e circunstanciais, meu respeito. Pela opção, resignada, de amar imensamente mas em absoluto silência,minha admiração. Hoje o dia é de vocês. E pra vocês dedico essa música-poema lindamente cantada.

Abraço,

Regina.

(Pro Meu Grande Amor é versão de Tim Maia para "Hey There Lonely
 Girl - L.Carr e E.Schumann)

sábado, 11 de junho de 2011

Crônica cantada:A Carta - Renato Russo e Erasmo Carlos


A Carta
 Benil Santos e Raul Sampaio

Escrevo-te estas mal traçadas linhas
Meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração
Espero que desculpes os meus erros por favor
Nas frases desta carta que é uma prova de afeição
Talvez tu não a leias, mas quem sabe até dará
Resposta imediata me chamando de meu bem
Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais
Não sei amar na vida mais ninguém
Tanto tempo faz
Que li no teu olhar
A vida cor de rosa que eu sonhava
E guardo a impressão
De que já vi passar
Um ano sem te ver
Um ano sem te amar
Ao me apaixonar por ti não reparei
Que tu tivestes só entusiasmo
E para terminar amor assinarei
Do sempre sempre teu

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A criança e o adolescente brasileiros estão lendo mais.

A criança e o adolescente brasileiros estão lendo mais.

     Segundo informa a Câmara Brasileira do Livro, as vendas de livro infanto-juvenis cresceram 9,6% em relação ao ano anterior. Ednilson Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias informou que crianças e adolescentes são responsáveis por 15% do faturamento das lojas .Estas informações foram dadas ontem, dia 08.06 durante o 2º Encontro Nacional do Varejo do Livro Infantil e Juvenil, realizado dentro do 13ª Salão Nacional do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro.

     A Câmara Brasileira do Livro diz ,ainda, que aproximadamente 2,5 mil livros do total de 12.000 novos títulos lançados em 2010, foram de literatura para crianças e adolescentes. O que ratifica o que diz a diretora da fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Ísis Valéria Gomes, para quem a maior produção é resultado do maior interesse desse público.
     Outro dado que deixa este blog feliz é o de que é das crianças e adolescentes a liderança no ranking de crescimento de leitura.
      Recebi de minha filha a matéria de jornal, de onde estou dando essas informações. Ela é uma das que sabe o quanto valorizo a leitura, o quanto insisto em dizer que não adiante incentivar leitura entre adultos porque o adulto não lê se não foi criança leitora.
Frequentemente me declaro desesperaçada com relação à possibilidade de ver boas práticas sociais e me baseio no fato de ver no dia a dia uma quantidade absurda de jovens e adultos analfabetos funcionais. Sim. dentro da sala de aula de universidade pública, um número grande de aprovados em vestibular que não consegue se expressar falando e menos ainda escrevendo.
     E o que esperar de cidadania de quem lê mal, escreve pior, não entende o que lê e nem se faz compreendido quando escreve?
      Notícia como esta,  publicada aqui pelo Diário de Pernambuco, é um alívio! Me faz crer que a geração de meus netos conseguirá se impor pela qualidade e não pela grosseria e falta de educação. 
     A população que hoje reina  vazia de conteúdo nas salas de aula, nos cinemas, bares, restaurantes e vias públicas talvez seja a última mostra da falta que faz um livro. Os próximos jovens, bons leitores atuais,serão menos violentos, sofrerão menos violentos, serão melhores estudantes, também melhores professores. Saberão pensar, enfim.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Bilhete de Loteria, Anton Tchekhov

                                                                     

Ilustração da Poty
     Ivan Dimítritch, homem de classe média gastando com a família 1200 rublos por ano e muito satisfeito com a sua sorte, certo dia, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.
- Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando os pratos da mesa. –  Espia se não saiu a tabela das tiragens.
- Saiu,sim– respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não foi o teu bilhete que sumiu no penhor?
- Não, eu fui levar os juros na terça-feira e o encontrei.
- Que número?
- Série 9499, bilhete 26.
- Humm... vamos ver...… 9499 e 26.
Ivan Dimítritch não acreditava em sorte de loteria e, em outra ocasião, jamais coferiria a tabela das tiragens, mas agora, por falta  de assunto  e porque o estava mesmo diante dele, passou o dedo de cima para baixo pela coluna dos números de série. E no mesmo instante, como que zombando de sua falta de fé, logo na segunda linha em cima,  apareceu  diante de seus olhos, nítido e claro o numero 9499! Sem olhar  o número do bilhete, sem pensar, ele baixou o jornal para os joelhos num movimento brusco e, como se alguém lhe tivesse jogado um jato de  água fria, sentiu um arrepiozinho agradável no  ventre - uma cócega ao mesmo tempo pungente e gostosa.
     - Macha, 9499 é a série! disse ele em voz surda
     A mulher olhou para seu rosto admirado e assustado, e compreendeu que ele não estava brincando.
     - 9499? – perguntou ela, empalidecendo e soltando na mesa a toalha dobrada.
     - Sim, sim… é sério
     - E o número do bilhete?
     - É mesmo! Falta o número do bilhete. Mas, espera...pensa só... Não, que tal? Sempre é o número de nossa série! Sempre é, estás compreendendo?…
     Ivan Dimítritch, olhando para a mulher,sorria um sorriso largo e vago, como uma criança a quem mostrassem um objeto brilhante. A mulher também sorria:era-lhe também agradável que   ele mencionasse apenas a série e não se apegasse em saber do número do bilhete premiado. Adiar e brincar com a esperança da sorte possível- é tão doce, tão arrepiante!
     - Tem a nossa série– disse Ivan Dimítritch, após  um longo silêncio. – Portanto,existe a probabilidade de que tenhamos ganho. Apenas uma possibilidade, mas ela existe!
     - Bem, agora, olha.
     - Espera.Temos tempo para nos desiludirmos. A série esta na segunda linha de cima, quer dizer,  o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, mas uma força, um capital! E se eu olhar agora para a tabela, e vir  26? Heim? Escuta,o que será  se,de repente, nós ganhamos mesmo?
     Os esposos puseram-se a rir e ficaram longamente a se fitar em silêncio.  A possibilidade da sorte  os atordoara, eles não conseguiam nem mesmo devanear, dizer para que lhes serviriam esses 75 mil, o que iriam comprar, para onde viajar. Eles só pensavam nos números 9499 e 75 mil. Pintavam-nos na sua imaginação, mas na sorte propriamente dita, que era tão possível, eles não pensavam. 
     Com o jornal na mão,Ivan Dimítritch atravessou a sala dum lado para outro,algumas vezes, e só então, um pouco mais calmo depois da primeira impressão, começou a sonhar.
     - E que tal se ganhamos? – disse ele. – Mas isso será  a vida nova, toda uma catástrofe! O bilhete é teu, mas se ele fosse meu, a primeira coisa que eu faria, naturalmente, seria comprar algum imóvel qualquer por uns 25 mil, algo como uma granja,  uns 10 mil para despesas imediatas: mobíliário novo… uma viagem… pagar as dívidas etc. Os 40 mil restantes iriam para o banco, a juros…
     - Sim, uma granja, isso é bom – disse a mulher sentando-se e cruzando as mãos nos joelhos.
    – Algures,na província  de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, isso dispensa casa de campo, e em segundo, é sempre uma renda. 
     E na sua imaginação aglomeravam-se quadros cada qual mais risonho e poético, e em cada um deles se via satisfeito, sossegado, saudável, aconchegado - até quente!  Ei-lo, acabando de tomar um refresco bem gelado, de barriga para cima sobre a areia quente, ao lado do riacho ,ou no jardim, na sombra de uma tília… Faz calor… O filhinho e a filha brincam ao lado, cavocam a areia ou caçam  bichinhos na grama. Ele cochila deliciosamente, não pensa em nada, e sente com  o corpo inteiro que  não tem que ir para o emprego nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã. E quando enjoa de ficar deitado, ele vai para o campo ver cortar o feno, ou pra o bosque colher cogumelos ou olhar os mujiques pescando de rede.E quando o sol se põe,ele pega a toalha, o sabonete e vai sem pressa para o banho, despe-se lentamente, esfrega longamente o peito nu com as palmas das mãos, depois entra na água. E na água,ao lado dos foscos círculos de sabão , brincam peixinhos, balouçam juncos verdes. Depois do banho no rio, chá com creme e rosquinhas doces...À noite, um passeio, ou um joguinho de baralho com os vizinhos.
     - Sim, seria bom comprar uma granja – diz a mulher, sonhando também, e  vê-se pelo seu rosto que ela está enfeitiçada pelos seus  pensamentos.
     Ivan Dmítritch imagina o outono com chuvas, noites frias, o veraneio. Nesta época é preciso passear bastante pelo jardim, de propósito para esfriar bem o corpo, e depois entornar um bom cálice de vodka e "quebrar' com cogumelo em salmoura ou pepino azedo e... entornar outro.  As crianças vêm correndo da horta, carregando cenouras ou nabos, cheirando a terra fresca… E depois, refestelar-se no sofá e, sem pressa, folhear alguma  revista ilustrada, e depois cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se à sonolência
     Depois  do veraneio vem o tempo é feio, lamacento. Chove dia e noite, as árvores desfolhadas choram, o vento é úmido e frio. Cachorros, cavalos, galinhas – tudo está molhado, tristonho, encolhido. Não há passeios, não se pode sair de casa, fica-se o dia inteiro a andar de um canto para outro da casa  e a espiar  tristonho pelas janelas embaçadas. Que tédio!
     - Sabe, Macha, eu iria para o estrangeiro - disse ele.
     E ele pôs-se a pensar como seria bom, em pleno outono,viajar para o exterior,  para o sul da França, para a Itália…  a Índia!
     - Eu também iria para o estrangeiro, sem falta – disse a mulher. – Mas vamos, confere o número do bilhete!
     - Um momento...espere!
     Ele passeava pela sala e continuava a pensar ... Veio-lhe a ideia - e se, de fato, a mulher resolvesse ir para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres leves,despreocupadas, que vivem o momento presente, e não dessas que passam  a viagem inteira só pensando e falando dos filhos, suspirando, assustando-se e tremendo por causa da cada copeque . Ivan Dmítritch imaginou a sua mulher no vagão, com uma infinidade de trouxinhas, embrulhos,cestas. Ela suspira e  se queixa que a estrada lhe deu dor de cabeça, que já se gastou muito dinheiro; a toda hora tem-se que  correr para estação buscar água quente, pão com manteiga,  água fria.... E almoçar ela não pode, porque fica muito caro…
     “Mas não é que ela iria me pedir contas de cada copeque”, pensou ele, com um olhar de esguela  para a mulher. “Pois se o bilhete é dela, não é meu!Também para que ela quer ir para o exterior? O que é que ela nunca viu por ali? Vai  ficar plantada no quarto do hotel e eu nãovou poder me mexer...Sei disso!”
     E pela primeira vez na vida reparou ele reparou que sua mulher estava velhusca,feia,toda impregnada de cheiro de  cozinha, ao passo que ele ainda era moço, sadio,forte, bom para casar  segunda vez.
     “Naturalmente, tudo isso são tolices e bobagens”- pensava ele. “Mas… quando iria ela ao estrangeiro? que é que ela entende daquilo? Mas ela iria, iria mesmo… Imagino bem...E no entanto, para ela Nápoles ou  a aldeia de Klin é a mesma coisa. Só iria me atrapalhar. Eu ficaria dependendo dela. Estou imaginando - assim que recebesse o dinheiro,ela logo o trancaria a sete chaves, à maneira das mulheres… Esconderia o dinheiro de mim… Iria  fazer beneficência com a sua parentela, mas para mim pediria contas de cada níquel."
     E Ivan Dmítritch lembrou-se da parentela. Todos aqueles maninhos e maninhas, titias e titios, assim que soubessem da sorte-grande, sairiam de suas tocas, viriam todos pedinchando, sorrindo untuosamente, hipocritamente. Gente mesquinha, desagradável! Se a gente lhes dá, pedem mais; se recusa, vão maldizer a gente, caluniar, rogar toda sorte de pragas.
     Ivan Dmítritch relembrava os parentes, e seus rostos, que sempre lhe foram indiferentes,  agora lhe pareciam odiosos, insuportáveis.

Tchekhov, por ele mesmo

     “Que gentinha nojenta", pensava ele.
     E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso e insuportável. No seu coração subia uma raiva dela, e ele pensava maldosamente:
     “ela não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, iria me dar uns  cem rublos, e o resto  - a sete cadeados!”.
     E ele já olhava agora para a mulher, não com um sorriso mas  com ódio. Ela também olhou para ele com raiva. Ela tinha seus próprios sonhos radiosos, seus planos, seus pensamentos; ela compreendia  perfeitamente os devaneios do marido.  Ela  sabia muito bem quem seria o primeiro a estender a pata para o seu dinheiro.
     “É bom sonhar por conta alheia!”, dizia o seu  olhar. “Mas não, não te atrevas!"
     O marido compreendeu seu olhar: o ódio revolveu-se-lhe no peito e, só para aborrecer  sua mulher, por desaforo ele espiou rápido a quarta página do jornal e proclamou triunfantemente:
- Série 9499, bilhete 46! Não 26!
     A esperança e o ódio desapareceram ambos duma só vez, e no mesmo instante pareceu a Ivan Dmítritch e sua mulher que os seus quartos eram escuros, pequenos e baixos, que o jantar que eles acabaram  de comer não os satisfez, mas só está pesando no estômago, que as noites são longas e tediosas... 
     - É o diabo! – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. – Por onde quer que eu pise, está cheio de papeluchos debaixo dos pés, migalhas, cascas. Nunca  se  varre nesta casa! Acho que vou ter que sair de casa, e o diabo me carregue de uma vez! Vou embora e me enforco no primeiro poste.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Oração para Marilyn Monroe, Ernesto Cardenal


01.06.1926 - 05.08.1962
Senhor,
recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome de Marilyn Monroe
ainda que este não seja o seu nome verdadeiro
(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).
violentada aos 9 anos,
a empregadinha de loja que quis se matar aos 16
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem
Sem seu Agente de Imprensa
Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos
sozinha como um astronauta diante da noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja
(de acordo com a Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno
mas também é mais que isso.
*
As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo de um jorro de luz).
Porém o templo não são os estúdios da 20th Century Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.
*
Senhor
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás apenas uma empregadinha de loja.
Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
E o sonho foi realidade (mas como a realidade do technicolor).
Ela apenas representou de acordo com o script que lhe demos
--O de nossas próprias vidas-- E era um script absurdo.
Perdoa-lhe Senhor e nos perdoa
por nossa 20th Century
por esta Colossal Super Produção em que todos trabalhamos
Ela tinha fome de amor e oferecemos tranqüilizantes.
Pela tristeza de não sermos santos
recomendamos a Psicanálise.
*
Lembra-Te Senhor do seu crescente pavor da câmara
E seu ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se a cada cena –
e como se foi fazendo maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.
*
Como toda empregadinha de loja
sonhou ser estrela de cinema.
E sua vida foi irreal quanto um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.
*
Seus romances foram um beijo com os olhos fechados
que quando se abrem os olhos
descobrem-se embaixo de refletores
e os refletores se apagam.
*
E as duas paredes do quarto se desmontam (eram um set de cinema)
enquanto o Diretor se afasta com suas anotações
porque a cena já foi rodada.
Ou como uma viagem de iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistas da sala do apartamento miserável.
O filme acabou sem o beijo final.
Acharam-na morta em sua cama com a mão ao telefone
E os detetives não souberam a quem ia chamar.
Foi
como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouve apenas a voz de uma gravação dizendo: WRONG NUMBER
Ou como alguém que ferido pelos gangsters
estende a mão para um telefone desligado.
Senhor
quem quer que tenha sido a quem ela chamava
e não chamou (talvez ninguém
ou era Alguém cujo número não se encontra na Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone.

Tradução de Roberto Schmitt-Prym


Ernesto Cardenal nasceu em Granada em 1925. É o mais celebrado poeta vivo da Nicarágua. O Poema postado acima
é uma de suas obras mais famosas.