segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Segunda-feira poética: O Poço da Panela, Olegário Mariano



Igreja Nsa.Sra. da Saúde
no Poço da Panela - Imagem: Regina Porto
O Poço da Panela
Olegário Mariano
(1937)

Num remanso bucólico e sombrio
Onde atenua a marcha o grande rio,
À sombra de recurvas ingàzeiras,
Batem roupa,cantando as lavadeiras.
Trago ainda nos olhos: é bem ela,
A Paisagem do Poço da Panela:
A igreja, a casa grande,as gameleiras
E ao fundo o pátio verde e as ribanceiras
que afagam, num lúbrico arrepio,
A corpo adolescente e alvo do rio.
Do outro lado da margem - capinzais
Da olaria e do sítio de Morais.
Morais Pilôto - um português antigo,
Compadre de meu Pai, seu grande amigo,
A quem seguia como um cão de fila
Através da política intranqüila.
Homens, éramos dois. Completamente
Diferentes em tudo.Eu, manso e doente,
Meu irmão insubmisso e insuportável
Como um potrinho de expressão saudável
Cometendo distúrbios... Meu irmão
Levava surras como um boi ladrão.
Mas vingava-se em mim. O quanto eu tinha
Era nas suas mãos como farinha.
Animais de madeira, leões, camelos,
Até a minha coleção de selos
Êle queimou um dia por vingança.
Aprendi a sofrer muito criança.
Se alguém me dava cousas de presente,
Dêle era tudo, inevitavelmente.
Se havia luta entre nós dois, a sorte
Decidia por êle: era o mais forte.
E eu,sem revolta e sem melancolia,
Sendo filho de ricos, mal vivia.
Uma vez, (como dói essa lembrança!)
De um bando de guris da vizinhança,
Meu irmão, num rincão da estrebaria,
Organizou a sua "Companhia",
Fêz um bumba-meu-boi surpreendente,
distribuiu os papéis a tôda gente:
O "boi", o "Seu Coitinho", a "Ema", a "Caipora".
Entraram todos...Eu fiquei de fora.
Nessa noite, meu Pai,vendo-me em pranto,
Pôs a troupe na rua por encanto
E reduziu a múltiplas fogueiras,
"Boi","cavalo marinho" e "cantadeiras".
De então recrudesceu a fúria.
Não havia pedido nem lamúria
De minha Mãe, que comovesse a fera.
Era o diabo. Eu nem sei mesmo o que êle era.
Certa noite pesada de tormenta,
Minha Mãe, numa voz cansada e lenta,
Lia-me a história de Patinho torto.
Eu, com meus dedos tremendo, ouvia absorto,
Quando assomou à porta o turbulento.
Entrou que parecia um pé-de-vento.
Parou. Sorria. Já conhecia a história,
Disse (tenho bem claro na memória):
Que êle era um cisne pra viver num hôrto
E eu não passava de um patinho torto.
Minha Mãe pôs em mim seus olhos mansos,
Tranquilos como as águas dos remansos,
E tantas vezes me beijou no rosto,
Numa expressão tão triste e tão singela,
Que desejei sofrer novo desgôsto
Só pra ter novas carícias dela.
A despeito das rixas e perigos,
Crescemos ambos como bons amigos,
Vendo o tempo apagar, rude e apressado,
Êsse doce perfume do passado,
Que nos infiltra uma saudade louca.
E inda temos um beijo em nossa bôca,
Um beijo de respeito e de recato
Para beijar chorando o seu retrato.
Velhos, sem ter ninguém que nos iluda,
Pensamos nela e nos seus bons destinos.
Se viva fôsse, inda éramos meninos,
Que para o olhar das mães que nunca muda,
Os filhos continuam pequeninos...


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(Poesia do livro Enamorado da Vida de 1937)

O Blog LivroErrante, transcreveu O Poço da Panela do vol.2 de Tôda uma Vida de Poesia,editado pela José Olímpio Editora em 1957 e  que reune os livros Ângelus (1911)Sonetos (1912) Evangelho da Sombra e do silêncio (1912) Água Corrente (1918)Últimas cigarras (1920) Castelos de Areia (1922) Cidade Maravilhosa(1923) Canto da Minha Terra(1930) Destino (1931) Teatro (1932) O Enamorado da Vida(1937) Quando Vem Baixando O Crepúsculo(1945) Cantigas de Encurtar Caminho (1949) e Mundo Encantado (1955).


Mantida grafia original.