segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Segunda-feira poética: Cecília Meireles

O Menino Azul

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Esperando a Bienal 2015

Saiu o que creio ser a lista  das atrações da edição 2015 da Bienal de Pernambuco.  Não tem nenhum dos escritores que eu gostaria de ver, mas é importante conhecer gente nova. Me interessei pela escritora argentina.    
Vamos ao que temos: 
 
Ana Martins Marques,
Contardo Calligaris,
Edyr Augusto,
Eliane Robert Moraes.
Jeanne Marie Gagnebin,
Leonardo Padura, (Cuba)
Lourenço Mutarelli,
Muniz Sodré,
Paulo Bezerra,
Regina Dalcastagnè,
Selva Almada (Argentina)

Autores locais: Ronaldo Correia de Brito, Samarone Lima, Fernando Monteiro, Pedro Américo de Farias e Lourival Holanda. 

Homenageados da X Bienal Internacional do Livro de Pernambuco - 2015:
 Miró da Muribeca  (Recife - PE)
Seus livros:
Que descobriu azul anil
Ilusão de ética
Entrando pra fora e saindo pra dentro Quebra a direita segue a esquerda e vai em frente 
São Paulo eu te amo mesmo andando de ônibus
Poemas pra sentir tesão ou não
Pra não dizer que não falei de flúor.


 
 Luzilá Gonçalves (Garanhuns - PE)
Seus livros: 
Muito Além do Corpo 
A Anti-Poesia de Alberto Caeiro 
Os Rios Turvos
 A Garça Malferida 
Em Busca de Thargélia 
Humana, Demasiado Humana 
Voltar a Palermo 
No Tempo Frágil das Horas

 
Ascenso Ferreira ( Palmares- PE).
Seus livros: 
Catimbó
Cana Cainana
Xenhenhém

Seu poema Trem de Alagoas foi musicado por Vila Lobos

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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Quarta-feira é dia de: Raquel Brabec



Para adoecer, vá ao médico

     Taquicardia, suor frio, ansiedade e princípio de gagueira. Esses seriam sintomas suficientes para levar você a procurar um médico, mas nem sempre é assim que acontece. Em uma lógica invertida, pode ser que esses sintomas apareçam justamente porque você está procurando um profissional de saúde.

Não vou fazer aqui comparações entre atendimento privado e público, porque isso não seria jogar limpo. Se em um a situação está ruim, no outro, ela beira a calamidade pública. Considerando que você é um cidadão que gasta seu suado dinheiro em um plano de saúde e planeja fazer o check-up anual, então se prepare, pois está prestes a enfrentar a Via Crúcis do sistema de saúde.

    
Chargista: Amarildo
O começo de tudo: agendamento de consulta. O que deveria ser um momento prático e rápido pode levar toda sua preciosa manhã. Se alguma alma santa atender ao telefone, considere-se uma pessoa de sorte, pois na maior parte das vezes te esquecem no abismo de “tu-tu-tu” dos cabos telefônicos ou em alguma fria mensagem gravada te avisando que aquele não é o horário de atendimento do dito cujo médico.

Mas, na verdade, essa alma santa que te atendeu é um lobo transvestido de lebre. Aquelas atendentes bem vestidas, de maquiagem e cabelos feitos, compõem uma classe dúbia, a prova de que as aparências enganam. Com ares superiores, elas te atendem como bem lhes convém, pois no mercado da procura e da oferta, você, sinto dizer, sai perdendo.

E a perigosa pergunta, aquela que põe em definitivo o tipo de atendimento que você receberá: “é privado ou plano?”. Depois dela, tenha certeza que as palpitações começarão a aparecer.

      Mas você é uma pessoa sortuda, pois já conseguiu ser atendido e a atendente, depois de alguns muxoxos de desagrado audíveis pelo telefone, marcou sua consulta para daqui a três meses, já que seu plano, apesar de caro, é muito concorrido. Por algum tempo você esquece o estresse de ir ao médico, até que a data vai se aproximando. E com ela, a perspectiva da temível sala de espera.

Naquela sala branca, sob o olhar indiferente de uma atendente empoleirada por trás do balcão, é preciso desencavar suas habilidades de escoteiro. Durante as longas horas que se seguirão antes que seja chamado, será preciso se munir de água, casaco, barra de cereal e um livro para enganar o tédio. Depois das primeiras duas horas, comece a entoar alguns mantras budistas para incorporar o espírito da paciência. Os demais pacientes na sala de espera te lançarão olhares de reprovação, mas isso não é exatamente um perigo, eles estão apenas com inveja da sua preparação.

      Enfim, o médico te chama. Lá está ele, ou ela, uma pessoa tão distante e disputada que você sente necessidade de chamá-lo de doutor ou de doutora a todo momento. Mas essa reverência é em vão.  O médico olha brevemente para você e depois desvia toda a atenção para uma ficha interminável, que ocupa 2/3 do atendimento. Então começa o bombardeio: “Tem histórico de diabetes na sua família? Pressão alta? Colesterol alto? Alguma alergia?”, e antes que você lembre se aquela tia distante sofria de algum desses males, ou na verdade era Parkinson, ou quem sabe Alzheimer, a consulta já está em outra etapa.

     O outro 1/3 da consulta é dedicado a algumas ordens que você executa sem questionar. “Suba na maca”, “Levante um pouco a camiseta”, “Respire fundo três vezes”, “Estenda o braço”, frases que, em outro contexto, pareceriam sugestivas. Depois disso, mudez completa, e dá-lhe mais ficha para preencher.

No silêncio sepulcral do consultório, você reflete: “será que devo falar algo”? Antes que pense em acrescentar ao monólogo aquele episódio em que engoliu uma faca de manteiga sem querer, o atendimento é finalizado com mais ordens de exames, e tudo acaba em um breve acenar de cabeça. Maldita ficha!

     A espera e a preparação são recompensadas com mais exames, mais salas de espera, mais consultas com robôs, quer dizer, médicos. É ai que os sintomas aparecem de verdade. Taquicardia, suor frio, ansiedade e princípio de gagueira. O diagnóstico da doença? Você foi ao médico.

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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Segunda-feira poética: Igor Westphalen

Árvore da Vida

Pensamentos que irrigam,
Baobá - Pça da República, Recife

Os galhos do corpo,
Neurônios que inflam,
As veias do tronco.


Flores e olhares,
Atraem a feminina,
Folhas e narinas,
Respiram novos ares.


Pólen copulando o óvulo,
Espermatozoide estuprando o néctar,
Ser mil e um sem rótulos,
Ser árvore liberta.


Terra viva de onde vem e pra onde vai,
Onde a ciência ou a fé se desmistifica,
A História em espiral se faz e refaz,
No solo fértil da árvore da vida.


(Em: Janela e Paisagem, pág. 17)

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Quarta-feira é dia de: Raquel Brabec



O relógio


Últimos preparativos antes de sair. No corredor para a porta de sua casa, Jorge deu uma última olhada no espelho. Vai ser um encontro tranquilo, pensou pela nonagésima vez. Apenas mais uma ocasião para jogar conversa pro ar e relembrar bons momentos. Sua mente trabalhava para pensar desse jeito, mas o suor em suas mãos indicava um alerta biológico mais antigo, incompatível com o pensamento. Encurralado, foi a palavra que surgiu em alguma zona primitiva e instintiva da sua mente, longe do olhar acusador da razão.
     Após olhar mais uma vez para o relógio, a terceira em um curto espaço de tempo, a ficha caiu e o cérebro de Jorge, esgotado pelo dilema, se deu por vencido. Não, não seria um momento saudosista, de troca de amenidades.Seria o encontro de turma do colégio.
     Passaram-se anos após o fim dos estudos. Cada um seguiu seu caminho, ocasionalmente cruzado por um evento de maior significado, como aniversário, carnaval ou casamento. Os telefonemas e as visitas começaram a rarear, e aquela amizade, antes alimentada na rotina das aulas, transformou-se em um contato distante e, por que não dizer, conveniente.

     Os minutos se passam, mas Jorge não deu nem um passo à frente naquele corredor. Seu olhar recai automaticamente no relógio, o que o deixa aborrecido. O que seu inconsciente quer dizer, mas ele não quer admitir, é que essas olhadas ansiosas para o relógio prateado em seu braço significam um desejo insano de fazer voltar o tempo. Jorge gostaria que, por mágica, só com seu olhar concentrado, aqueles ponteiros retrocedessem para alguns dias atrás, quando recebeu o convite para o tal encontro. A resposta poderia ser diferente. Ah, não vai dar, já tenho outro compromisso, diria ele então. Pena que momentos de lucidez só chegam depois de as pessoas tomarem alguma decisão equivocada. E pena também que ainda não inventaram uma máquina do tempo. Conformado, Jorge abriu a porta para enfrentar o destino à frente.

     Antes de chegar ao local de encontro, Jorge avistou pela janela do carro uma ex-colega sua, Júlia, estacionando nas proximidades. Enquanto manobrava o seu próprio carro, lembrou-se do que soube da vida de Júlia. Ela casou com outro ex-colega seu, Davi, e ambos se tornaram advogados respeitados pela sociedade, com um escritório próprio. Porém, nos bastidores, fofocas venenosas apontavam para um casamento em ruínas, sustentado apenas pelo desejo mútuo de manter a estabilidade nos negócios.
Claro, durante o encontro de turma eles posariam como o casal perfeito, ricos e bem-sucedidos. Aquilo provocou um nó na garganta de Jorge, como se tivesse ingerido um bocado de comida compacta e grudenta sem nenhum copo de água por perto. Aquele encontro não tinha nada de saudosismo – estava mais para uma sessão infernal em que se mede o suposto nível de sucesso dos outros.
     A sensação desagradável estava passando dos limites. Jorge não entendia o que diabos ia fazer naquele encontro com pessoas que não tinham mais nada a ver com ele. Listou na mente suas conquistas ao logos dos últimos anos. Aos olhos de uma pessoa comum, não parecem grande coisa. Mas, para ele, todas são degraus para um sonho maior, mas, ao que parece, isso é visível somente a ele e a seu novo círculo de amizades.
     Parado no escuro do carro já estacionado, ele engatou um monólogo enraivecido: Não quero argumentar meu estilo de vida, justificar a rentabilidade dos meus sonhos, convencê-los de que sou feliz com as decisões que tomei, como sei que precisarei fazer. E se eu disser que não tenho planos para o que a sociedade valida como certo, como casamento, filhos ou a estabilidade de um concurso público, mereço respeito pela minha opinião, como sei que não terei, pensou.
     Mas pensamentos não são ações, e ele já estava ali, e Júlia o reconheceu pelo vidro do carro. Estavam esperando por ele. À porta do ponto de encontro, Jorge encaixou na boca seu melhor sorriso, acenando para os carrascos parados logo à frente. Não sem antes lançar furtivamente um último olhar para o relógio. Vai que dessa vez a mágica funciona.

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Imagens do google

terça-feira, 15 de setembro de 2015

História bonita (14): Ismael, primeiro da família a ter curso superior.

"O filho do pedreiro com a catadora de castanhas também venceu", foi com essa faixa que Ismael se apresentou no palco quando foi chamado para receber seu diploma de bacharel em Direito.

Assim,(ao lado) Ismael do Nascimento Silva homenageou os pais: D. Maria do Socorro catadora de castanhas e que só estudou até o 3º ano do ensino fundamental  e Sr.Antônio que ficou no primeiro ano do ensino médio e é pedreiro.

#MeusPaisMeusHeróis.

Diferente do usual nas solenidades quando o aluno entra com um dos pais, Ismael entrou com o pai e a mãe e explicou:
“Os dois entraram na colação de grau comigo porque são meus maiores exemplos de humildade, honestidade, dedicação e amor. Apesar de não terem condições, me deram assistência financeira para me manter no curso”, contou Ismael, que foi bolsista do Programa Universidade para Todos no Instituto Camilo Filho, em Teresina (PI).

O jovem piauiense de 25 anos já tem carteira da OAB. Conseguiu aprovação no rigoroso Exame de Ordem ainda no 9º período da faculdade. 

Ismael, filho de pedreiro e catadora de castanhas, sonha ir mais adiante ....    tenho pra mim que vai conseguir.

 
(fonte: Catraca Livre)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Segunda-feira poética: Manoel de Barros

O Punhal

Imagem de Adriana Lafer
Eu vi a cigarra atravessada pelo sol - como se
um punhal atravessasse o corpo.
Um menino foi, chegou perto da cigarra, e disse que
ela nem gemia.
verifiquei com meus olhos que o punhal estava
atolado no corpo da cigarra.
E que ela nem gemia!
Fotografei essa metáfora.
Ao fundo da foto aparece o punhal em brasa. 

Arquitetura do Silêncio
Manoel de Barros - Adriana Lafer
Edições de janeiro - 2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

E Se Eu Comprar Um Kindle?


Já me imagino lendo livro digital. Ops, livro digitalizado!!  Como seria?  Me sentiria o máximo, claro, mas concluiria que teria de viver no mundo do Kindle e no de papel.  

São décadas de treinamento nos rituais dos viciados em livros.   Aposto que continuaria entrando nas livrarias, perambulando por todos os setores, prestando atenção nas capas. Sim, elas são atraentes. Cheirando o(s) livro(s) escolhido e, se resistisse,  compraria o produto digital.

Pensa que é fácil sair sem carregar uma sacola com pelo menos 1 exemplar? A sacola faz parte do ritual dos deuses das traças.  

E presentear?  Aliás, receber de presente um livro digitalizado? Cadê o pacote? E a sensação prévia de qual livro será?  Ver a felicidade no rosto do doador, já não é um presente em si? 

Estava em São Paulo no dia do meu aniversário e foi meu netinho fofo, o Theo, quem me entregou um pacote azul bem cuidado. Vó e neto iguais na mesma curiosidade e pressa em abrir o pacote.  Essa expectativa, não existiria sem o livro de papel. O livro em quadrinhos encantou o Theo e eu tive de contar  diversas vezes a mesma história. Sempre só até a página 52, o final feliz determinado por ele. 

Sim!!  Não posso esquecer !!  E o autógrafo do autor?  Onde o José Eduardo Agualusa iria autografar?

Botei meu netinho na história porque foi o exemplo mais contundente de que eu, por enquanto, vou ficar analógica. 

Leia aqui sobre literatura digital

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Viagem, Maurício Pons


                             Partiu às dezenove horas e meia o ônibus que deveria ter saído sessenta minutos antes, o que geralmente acontece com esses pinga-pinga de sexta-feira. Quando tomei meu lugar na poltrona 27 o veículo já estava bastante ocupado. O ar em seu interior sustentava partículas diversas: perfume barato,salgadinho de queijo e pés suados. O compartimento de água mineral estava vazio,e meu desejo de que o reabastecessem  novamente não foi satisfeito. Por sorte logo iríamos fazer uma parada de meia hora para troca de motorista e jantar. Não que eu estivesse com fome - não estava, mas vou precisar da água.



Gosto de viagens longas em ônibus. É quando consigo pensar. Pensar em quê? Em respostas!

Não em respostas que eu procuro, mas nas que procuram em mim. Não nas certas, mas nas erradas, nas que falei sem ao menos pensar por cinco segundos. Essa é a ironia. Falo sem pensar, e depois não penso em outra coisa, nas possibilidades, oportunidades perdidas, no que poderia ter sido e no que foi realmente.


Não concentro no livro, não escuto a música,não sinto mais os cheiros; só ouço a minha voz que desconheço dizendo palavras que eu não queria ter dito. O profeta estava certo:palavras são como flechas que depois de lançadas não mais retornam.



Após trinta e cinco minutos de viagem o ônibus parou em um restaurante de beira de estrada. Precisei acordar o senhor que dormia na poltrona ao lado para que eu pudesse descer. Na calçada, alguns passageiros inundam seus pulmões com nicotina. Dentro do restaurante as filas se formam no bufê de salgados e doces. Pago minha água e volto para o meu lugar dentro do coletivo. Chequei o celular. Nenhuma ligação ou mensagem de texto. Toquei no pequeno ícone na lista de contatos do aplicativo e o sorriso se ampliou na tela brilhante. 



Depois de constatar que não estava online guardei o telefone no bolso da calça e coloquei os fones para ouvir The Police. Pensei em ligar. Devia?! E dizer o quê? Que tudo o que eu falei não era o que eu queria ter dito? Que ela entendeu errado porque eu não falei certo? Que ainda não era tarde demais? Ambos sabemos que o tempo passou e que agora não tem tanta importância; não depois de tudo o que eu (não) disse e fiz.



Os passageiros dormem enquanto o ônibus desliza suave pelo asfalto escuro como a madrugada. Apanho do chão minha única bagagem, uma mochila preta que uso pra carregar livros, o Ipod, fones de ouvido e outras coisas que uso nessas viagens. Abro o bolso de fora e pego três comprimidos.
Tomo primeiro o branco, que me fará dormir,com um gole da água mineral sem gás que comprei no paradouro. Acendo a luz de leitura, abro o livro onde está o marcador de páginas e leio: “Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.” Li mais um pouco até que o remédio começou a fazer efeito. Peguei os outros dois comprimidos, amarelos, e com goles mais generosos de água eu os engoli. Repouso o livro no colo, reclino a poltrona, fecho os olhos e fico esperando os remédios fazerem seu trabalho. Tenho uma longa viagem pela
frente, e pela primeira vez eu não sei bem para onde estou indo...