domingo, 10 de dezembro de 2017

Quadros, Marin Sorescu - tradução: Luciano Maia


Todos os museus têm medo de mim
porque cada vez que fico um dia inteiro
em frente de um quadro, no dia seguinte se anuncia
o seu desaparecimento.

Todas as noites sou flagrado roubando
em outra parte do mundo, mas eu não me importo
com as balas que silvam perto dos meus ouvidos
e com os cães-lobos que conhecem agora
o cheiro dos meus rastros melhor que os namorados
o perfume da amada.

Falo alto com as telas que põem em perigo a minha vida
penduro-as nas nuvens e nas árvores
e recuo para ter perspectiva.
Com os mestres italianos pode-se ter facilmente uma conversa.

Que algazarra de cores! Também por esse motivo
com eles sou flagrado rapidamente
visto e ouvido à distância
como se levasse papagaios nos braços.

O mais difícil é roubar Rembrandt:
estendes a mão e encontras a escuridão –
Ficas horrorizado, os seus homens não têm corpos
apenas têm olhos fechados em caves escuras.

As telas de Van Gogh são doidas
giram e dão cambalhotas
e tenho de segurá-las bem com ambas as mãos
porque são absorvidas por uma força da lua.

Não sei porque Bruegel me faz chorar.
Não era mais velho que eu
mas chamaram-no o velho
porque tudo sabia quando morreu.

E eu procuro aprender com ele
mas não posso reter as minhas lágrimas
que correm sobre as minhas molduras de ouro
quando fujo com as estações debaixo do braço.

Como estava dizendo, todas as noites roubo um quadro
com uma destreza invejável.
Mas o caminho é muito longo.

Sou apanhado por fim
e chego em casa altas horas da noite
cansado e rasgado pelos cães
segurando na mão uma reprodução barata.



Fonte: Memória das águas

Imagem: Lucia Adverse

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa

- É isto a liberdade? Há qualquer coisa de inseparável entre liberdade e solidão.

Mas também há qualquer coisa de parecido entre liberdade e o amor. Serão iguais. Solidão ajuda a perceber a liberdade. Mas é em companhia que a gente a saboreia. Acho que no amor acontece o mesmo: a sós significa dois. Mas liberdade com medo, liberdade fugindo, não é liberdade, é soltura. Seja como for, não é submissão. Amor deixado para trás é amor? Liberdade nós trazemos connosco. E o amor? Também. Todos os que eu amei estão cá comigo. Ajudem-me. O meu consolo é que, pelo que eu pude perceber, um escravo fujão nunca é considerado um homem covarde. O padrinho entenderá. Espero que minha menina também. Mas vou viver sem eles toda a vida?

 O Língua olhava para o seu fardo, para o incansável outro que o tinha suportado todos os dias, dizia-lhe:Aguenta-te, rapaz, não me abandones e não te abandonarei.

Para pensar, o Língua falava consigo mesmo.Pensava no padrinho, que lhe dizia: O que nós os homens somos não se pode ver. Não podemos dizer que a nossa alma tem esta ou aquela cor. Os velhos congos diziam que a alma é uma espécie de maga que nós carregamos, as há benfeitoras e também malfeitoras. A alma deixa o corpo de uma pessoa quando morre ou, por instantes, quando dormimos. Os sonhos são feitos para estarem em contacto com a alma. É o momento em que a alma recupera sua liberdade e sai a passear pelo espaço. O arrepio é um sentimento por causa da alma que sai e volta a entrar no corpo. E quem tem arrepios deve rezar sempre. Enfim, os ensinamentos do dia-a-dia. Palavras do padrinho ecoando na memória. Mas sobre o amor nem uma palavra. Talvez não haja sabedoria para isso.

No meio desse pensamento, pareceu-lhe, então, entender o que o padrinho quisera dizer-lhe com o afilhado toma conta do padrinho.

In:Sousa, Mário Lúcio, Biografia do Língua, Ed. D.Quixote, Portugal 2015, págs.206-207
Nota: o blog manteve a grafia original.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ser Levado, Vitorino Nemésio


Tivesse eu sido o que não fui,
Hoje era o mesmo projectado
António, Pedro, Lopo, Rui,
Quatro semblantes num só estado.

Mas eu serei, ainda que a morte
Me faça amiba, verme, pó:
Agulha a Deus, íntimo norte,
Resto de tudo uma alma só.

De eterno levo o tempo em frente
Como o boi leva o feno visto:
Mas ele é rés, e em mim vai gente:
Levado embora, existo, existo!

Imagem: The Garden of Saint Paul's Hospital - Leaf fall - 1889 (museu Van Gogh)

sábado, 2 de dezembro de 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Noite Em Que Houve Um Acidente, Chimamanda Ngozi Adichie



    
     Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido
    A tia Chinwe estava linda com um vestido cor de pêssego. “Acho que o Emeka sempre soube!”, disse com um sorriso. No pescoço usava um colar de coral. Tinha tanta energia quanto uma atriz de teatro no dia de estreia, cheia de entusiasmo, nervosa, ansiosa de convencer seu público com a versão de si mesma que ia mostrar para eles.

     Dei ao tio Emeka o enorme cartão de aniversário que tínhamos comprado e ele me abraçou. “Como você está crescendo rápido! Em seguida, começarão a chegar os pretendentes. Mas primeiro eles precisam vir pedir minha permissão!”.

     Antes de cortar o bolo fez um discurso. Disse que a tia Chinwe era sua rainha. Que era perfeita e que fazia muitos sacrifícios por ele, que sabia exatamente o que ele queria comer a cada dia, que dava dicas sobre o negócio, e comprava todas as roupas, e sabia onde estava tudo que ele tinha, e havia dado três filhos maravilhosos, e decidia tudo da casa, e que ele teve muita sorte.

     Os convidados aplaudiram e comemoraram. Foram ouvidos elogios por toda a sala. A tia Chinwe foi enterrada em afagos. Estava sorridente e brilhante.

     “A esposa perfeita”, disse uma amiga da minha mãe.

     Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido, não pelo que era. Não dependia de sua inteligência, seu senso de humor nem de como aplicava bem as injeções. Anos mais tarde descobriria que nasceu em uma família anglicana, tinha se convertido ao catolicismo para se casar com o tio Emeka.   Transformou-se totalmente para ser a pessoa que ele queria.

     Na noite da festa houve um acidente. Uma mulher, bêbada por todas as garrafas de Guinness que tinha bebido, começou a falar coisas para a tia Chinwe. Sobre o tio Emeka. Sobre o filho de dois anos que tinha com uma garota do Estado de Imo. Tia Chinwe foi chorar no quarto de hóspedes, nos braços da minha mãe. Parecia confusa, perdida. Falava muito baixinho. “Não gritei com Emeka”, disse à minha mãe.

     Um tempo depois, ouvi minha mãe e tia Ngozi falando sobre a tia Chinwe. As duas concordaram que ela tinha resolvido a situação muito bem. Era o melhor que podia fazer. Por que brigar e levantar mais poeira?

     Tia Chinwe era um ideal, uma ideia. Talvez minha mãe e outras mulheres que eu conhecia não eram como ela, mas a idealizavam. Não só aceitavam o que representava, mas aspiravam a ser como ela. A experiência dela não foi a origem das perguntas que eu começava a me fazer, mas claro que influenciou bastante. A vida dela encorajou minhas reflexões.

     Por que deveria ter uma reação contida para que a admirassem? Por que não tinha se enfurecido com sua humilhação? E se tivesse feito isso, por que não seria admirável? Para mim parecia algo mais humano, mais sincero. Nunca pediu nada ao homem que amava, e isso era digno de elogio. Amar era dar, mas amar também devia ser receber. Por que não pedia nada? Por que não se atrevia? Por que sua perfeição dependia de não pedir nada?

     Pouco depois da festa, tia Chinwe mudou de nome, de doutora (senhora) Chinwe Nwoye a doutora (senhora) Chinwe Emeka-Nwoye. Eram os anos noventa, e estava na moda entre as nigerianas de classe média e alta adotar o nome e sobrenome do marido, separados por um hífen. Mas me pareceu estranho que a tia Chinwe fizesse isso. Não era recém-casada, e na sua geração não havia o costume. Era como se sua resposta à humilhação fosse se apagar ainda mais, afundar-se ainda mais, mergulhar sem distinção no tio Emeka. Ou dizer ao mundo que, mesmo que ele tivesse um filho com outra mulher, ela ainda era sua esposa, e ser sua esposa era o mais importante.

Fonte: El País.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Dedicatória (1), Luciano Maia

Aos Cantadores

Aos poetas duendes do Sertão
reinventores mágicos da lenda
recontada nas noites de clarão
(barco-viola aos remos da contenda
seguindo a correnteza do refrão)
na torrente da rima, em cuja senda
desliza o meu poema de alma andeja
neste rio de verve sertaneja.


Aos Retirantes
mestre Vitalino


Dedico o meu poema a este povo
peregrino habitante dos caminhos
que depois de morrer nasce de novo
ressurgido das sombras, dos espinhos.
Dedico este meu canto em que não louvo
o sem-rumo dos rastros ribeirinhos
mas a força telúrica do rio
e a sangria assassina denuncio.

Imagem retirantes: Cristina turma 413

In: MAIA, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, SCJCC e Governo do Estado de Ceará , 2007.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Recado de Primavera, Rubem Braga

Meu caro Vinicius de Moraes:

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.
O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.
Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

Num aniversário de Rubem Braga, Zuenir Ventura escreveu  texto inspirado e dedicado a ele. Veja aqui

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Cântico Negro, José Régio

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Fonte:Andrews Souza

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Saudação Aos Que Vão Ficar, Millor Fernandes

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?
Que lei impedirá,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?
Que lei de tráfego impedirá um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que não lhe pertence?
Haverá mais lágrimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?
E o que será loucura? E o que será juízo?
A propriedade, será um roubo?
O roubo, o que será?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo não passará então a ser feiura?
Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos)
não farão às ocultas, homens especiais
que, de repente,
possam duplicar o próprio tamanho?
Quem morará no Brasil,
no ano dois mil?
Que pensará o imbecil
no ano dois mil?
Haverá imbecis?
Militares ou civis?
Que restará a sonhar
para o ano três mil
ao ano dois mil?


Fonte:Banco da Poesia
Imagem: Pinto Moura 

sábado, 11 de novembro de 2017

O Que Estou Lendo: Fantasma, Luiz Alfredo Garcia-Roza

Eu nem sou interessada em romance policial, mas Garcia-Roza é uma exceção e eu gosto muito do seu delegado Espinosa. Recomendo.  

A mulher sentada à beira da calçada na avenida Nossa Senhora de Copacabana só se sente em casa vivendo na rua - estar entre paredes a oprime, ela tem a sensação de que vai morrer sufocada. É tão fina e educada que todos a chamam de Princesa. Seu 'lar' é um trecho do piso de cimento delimitado por pedaços de papelão. Muito gorda, tem dificuldade para se mover. Mesmo assim, não descuida da aparência - alisa bem o vestido sobre as pernas esticadas, penteia-se com esmero e passa batom com pelo menos frequência - sempre que recebe a visita do delegado Espinosa. E o delegado Espinosa visita Princesa várias vezes por dia. Afinal, tudo indica que ela viu quem enfiou uma faca no homem muito branco, talvez um estrangeiro, que amanheceu morto na calçada a alguns metros dela. Mas Princesa costuma sonhar, às vezes até quando está acordada. Isaías é o grande amigo de Princesa. Ele sabe que a amiga viu alguma coisa que não deve ser lembrada. Acredita que precisa proteger a qualquer custo a moça dos perigos que podem surgir da noite - quando ela dorme sozinha na calçada - e do dia, quando os passantes são tantos que é difícil distinguir o inimigo que se aproxima para desferir um golpe. Como Princesa, Isaías é incapaz de lidar com o mundo complicado onde os dois vivem; como ela, é indefeso e vulnerável.(Sinopse da Livraria Cultura).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Ofensa, Tudor Arghezi




Desdenhei do granito, ó companheira,

Do qual te poderia ter moldado.
Busquei na argila do país amado
Teu corpo esbelto e com odor de cera.

Recolhi terra em bosques ancestrais
E amassei-a com minha mão de oleiro
Em partes, cada membro por inteiro
Teu ser pequeno, em sílex fugaz.

Esmaltei os teus olhos de verbena
E os cílios foram folhas de roseira.
As sobrancelhas, ramos em fileira
De erva recente, de uma luz amena.

O teu dorso dos cântaros formei
E se em teus seios tenho demorado
Com mão acesa, sinto-me culpado
Se na cintura a estátua não findei.

E quis ao corpo teu doar afeto
sentindo o tatear dos dedos meus.
Que a doce pena que nos doa Deus
Fosse de mim, te enchesse por completo.

Mulher que em mim a tentação encerra!
Hoje pesar, mas viva, te perdi.
Por que te fiz de argila, e me iludi
Não deixando pra as ânforas a terra?

Tradução: Luciano Maia.