quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Casa das Palavras, Marina Colasanti

    
Andam dizendo que uma imagem vale mais do que mil palavras. É uma frase de efeito, com ar de modernidade. As pessoas acreditam, até repetem. Mas não é verdade. Os próprios cultores da imagem tiveram que cunhar uma frase para louvá-la, talvez por achar difícil criar uma imagem que dissesse a mesma coisa, com a mesma clareza. Felizmente, o mundo está cheio de pessoas que amam as palavras e que se encantam com elas.
     E agora vou plantar aqui uma palavra que é um nome: Medellín. E sei que na cabeça de todo mundo essa palavra evoca várias outras: drogas, tráfico, cartel, violência. À distância, essas parecem ser as únicas palavras daquela cidade. Não são. Medelín - eu estive lá e sei - é uma cidade que ama especialmente as palavras.
     Ali acontece todo ano um festival de poesia surpreendente, que ocorre em escolas, teatros, igrejas, praças, tudo ao mesmo tempo, e tudo lotado. ali atuava, quando lá estive, um grupo chamado Ratos de Biblioteca, de estímulo à leitura. E dali me chega agora um encantador livro de palavras chamado Casa das Estrelas.
     Claro, todo livro é de palavras. Mas este, como explica seu autor Javier Naranjo, surgiu como um jogo em que crianças do primário eram convidadas a dar o significado de algumas palavras. As palavras eram freqüentemente escolhidas pelas próprias crianças. E o "jogo", que era muito sério, durou vários anos. Ao fim, foi feita uma seleção corrigindo-se apenas a ortografia. E do resultado final, transcrevo aqui algumas frases, agradecendo a Naranjo e às crianças.

Adulto: Pessoa que toda vez que fala, primeiro é dela. (Andrés Bedoya, 8 anos)

Água:Líquido que não se pode beber. ( Nelsón Ramírez, 7 anos)

Amor: É o que cada coração junta para dar a alguém. (Lina Maria Murillo, 10 anos)
Amor:Conseguir uma namorada aqui e outra na minha casa, e quero que a minha mãe emagreça porque está muito gorda. (Orlando Vásquez, 6 anos)

Ausência: É que eu vou morrer. (Yorlady Rave, 8 anos)

Assassinato:Tirar o melhor da pessoa. (Juan Restrepo, 9 anos) 

Deus: É o amor com cabelo comprido e poderes. (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Deus: É uma pessoa em que cravam cravos. É jovem. (Sebastián Uribe, 5 anos)

Dinheiro: É o fruto do trabalho mas há casos especiais. (Pepino Nates, 11 anos)

Eternidade: É quando numa casa todos os filhos casa, não se põe música, não tem confusão. Essa casa parece uma eternidade. (Blanca Henao, 10 anos)

Lar: O lar é alguma coisa que de repente se separa. (Juliana Escobar, 10 anos)

Igreja: Onde se vai para perdoar Deus. (Natalia Bueno, 7 anos)

Imortalidade: A imortalidade é muito dura. (Yamile Gavira, 7 anos)

Lembrança: É uma coisa de pequeno a grande. (Fabián Loiza, 12 anos)

Mãe: Minha mãe cuida muito de mim, gosta muito de mim, me dá comida quando não quero. (Camila Gomez, 7 anos)
Mãe: A mãe é a pele da gente. (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Medo: é que a minha mãe dirige um carro e uns senhores do viaduto não podem comer e quebram o vidro do carro e matam ela e matam meu pai e eu vivo sozinho. (Orlando Vásquez, 6 anos)

Morto: Ser humano insensível. (David Casadiego, 10 anos)

Nada: É quando pergunto a alguém se viu alguma coisa. (Juan Osorio, 8 anos)

Nascer: É um momento que temos quando somos pequenos. (Wilson Taborda, 11 anos)

Criança: É um humano, são más às vezes, são boas às vezes, choram, gritam, brincam, bigam, tomam banho; às vezes não tomam banho, se metem na piscina e crescem. (Natália Calderón, 6 anos)

Religião: É uma coisa muito importante para Deus. (Walter Arias, 10 anos)
 
Sombra: É o sol e a gente põe a mão. (Weimar Ramón, 7 anos)

Tranqüilidade: Por exemplo, que o pai diga que vai bater e depois diga que não vai mais. (Blanca Helao, 10 anos)




 In: A Casa  das Palavras, Marina Colasanti, págs. 37-39,Ed.Ática, 2001
Nota: o blog manteve a grafia original.
  

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A Língua do Nhem, Cacília Meireles

Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha,
resmungando sozinha:

nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha,
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria 
tudo lhe respondia:

nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem...

In: Ou Isto Ou Aquilo, Cecília Meireles, ilustrações de Beatriz Berman.


Imagem: projeto abelha

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O Menino e o Homem (Prólogo) Fernando Sabino

Quando chovia, no meu quarto de menino, a casa virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o soalho de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a água que caía e para que os vazamentos não se transformarem em numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes.
     E me divertia a valer quando uma nova goteira aparecia, o pessoal correndo para lá e para cá, e esvaziando as vasilhas que transbordavam. Os diferentes ruídos das gotas d'água retinindo no vasilhame, acompanhados do som oco dos passos em atropelo nas tábuas largas do chão, formavam uma alegre melodia, às vezes enriquecida pelas sonoras pancadas do relógio de parede dando horas.
     Passado o temporal, meu pai subia ao forro da casa pelo alçapão,o mesmo que usávamos como entrada para a reunião da nossa sociedade secreta. Depois de examinar o telhado, descia, aborrecido. Não conseguia descobrir sequer uma telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta água da chuva, como invariavelmente acontecia. Um mistério a mais, naquela casa cheia de mistérios.
     O maior, porém, ainda estava por se manifestar.

Naquele dia, assim que a chuva passou, fui como sempre brincar no quintal. Descalço, pouco me incomodando com a lama em que meus pés se afundavam, gostava de abrir regos para as poças d'água,como pequeninos lagos, escorregassem pelo declive do terreiro, formando o que para mim era um caudaloso rio. E me distraia fazendo descer por ele barquinhos de papel, que eram grandes caravelas de piratas.
     desta vez, o que me distraiu a atenção foi uma fila de formigas a caminho do formigueiro, lá perto do bambuzal, e que o rio aberto por mim havia interrompido. A formiguinhas iam até a margem e, atarantadas, ficavam por ali procurando um jeito de atravessar. Encostavam a cabeça umas nas outras, trocando ideias, iam e vinham, sem saber o que fazer. Algumas acabavam tão desorientadas com o imprevisto obstáculo à sua frente que recuavam caminho, atropelando as que vinham atrás e estabelecendo na fila a maior confusão.
     do outro lado, entre as que já haviam passado, reinava também certa confusão. Enquanto as que iam mais à frente prosseguiam a caminhada até o formigueiro, sem perceber o que acontecia à retaguarda, as mais próximas do rio ficavam indecisas, indo e vindo or ali, junt à margem, pensando uma forma qualquer de ajudar as outras a atravessar.
     Resolvi colaborar, apelando para os meus conhecimentos de engenharia. Em poucos instantes  construi uma ponte com um pedaço de bambu aberto ao meio, e procurei orientar para ela, com um pauzinho, a fila de formigas.
     Estava empenhado nisso, quando senti que havia alguém em pé atrás de mim. Uma voz de homem, que soou familiar aos meus ouvidos, perguntou:
     - Que é que você está fazendo?
     Sem me voltar, tão entretido estava com as formigas, expliquei o que se passava. Logo consegui restabelecer o tráfego delas, recompondo a fila através da ponte. O homem se agachou a meu lado, dizendo que várias formigas seguiam por um caminho, uma na frente de duas, uma atrás de duas, uma no meio de duas. E perguntou:
     - Quantas formigas eram?
     Pensei um pouco fazendo cálculos. Naquele tempo eu achava que er bom em aritmética: uma na frente de duas faziam três; uma atrás de duas eram mais três; uma no meio de duas, mais três.
     - Nove! Exclamei, triunfante.
     Ele começou a rir e sacudiu a cabeça, dizendo que não: eram apenas três, pois formiga só anda em fila uma atrás da outra. 
     Então perguntei a ele o que é que cai em pé e corre deitado.
     - Cobra? - ele arriscou, enrugando a testa, intrigado. 
     Foi a minha vez de achar graça:
     - Que cobra que nada! É a chuva - e comecei a rir também.
     - Você sabe o que é que caindo no chão não quebra e caindo n'água quebra?
     - Sei: papel.
     Gostei daquele homem: ela sabia uma porção de coisas que eu também sabia. Ficamos conversando um tempão, sentados na beirada da caixa de areia, como dois amigos, embora ele fosse cinqüenta anos mais velho do que eu, segundo me disse. Não parecia. Eu também lhe contei uma porção de coisas. Falei na minha galinha Fernanda, nos milagres que um dia andei fazendo, e de como aprendi a voar como os pássaros, e a minha ventura de escoteiro perdido na selva, as espionagens e investigações da sociedade secreta Olho de Gato, o sósia que retirei do espelho, o Birica, valentão da minha escola, o dia em que me sagrei campeão de futebol, o meu primeiro amor, o capitão Patifaria, a passarinhada que Mariana e eu soltamos. Pena que minha amiga não estivesse ali, para que ele a conhecesse. Levei-o a ver o Godofredo em seu poleiro:
     - Fernando! - berrou o papagaio, imitando mamãe: - Vem pra dentro, menino! Olha o serena!
     - Hindemburgo apareceu correndo, a agitar o rabo. Para surpresa minha, nem o homem ficou com medo do cachorrão, nem este o estranhou; parecia feliz, até lambeu-lhe a mão. Depois mostrei-lhe o Pastoff no fundo do quintal, mas o coelho não queria saber de nós, ocupado em roer uma folha de couve
     O homem me disse que tinha de ir embora - antes queria me ensinar uma coisa muito importante:
     - Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto de sua vida?
     - Quero - respondi.
     O segredo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:
     - Pense nos outros.
     Na hora achei esse segredo meio sem graça. Só bem mais tarde vim a entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir. Masque sempre deu certo quando me lembrei de segui-lo, fazendo-me feliz como um menino.
     O homem se curvou para me beijar na testa, se despedindo:
     - Quem é você? - perguntei ainda
     Ele se limitou a sorrir, depois, disse adeus com um aceno e foi-se embora para sempre. 

O Menino no Espelho, Fernando Sabino,Ed.Especial MPM Propaganda 1992, págs.13-18
Ilustração de:Carlos Scliar

Nota: o blog manteve a grafia original.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Esperança, Czeslaw Milosz.
















Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas aparenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensar que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.

in “Ocalenic” (Salvação), 1945




Leia sobre o autor aqui  e aqui 
Obras do autor em português:

Obras do autor em inglês aqui

Fonte: Livraria Cultura

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

7 Minutos Depois da Meia Noite - 1º capítulo


    Chamado do Monstro (trecho do primeiro capítulo)


     O monstro apareceu logo depois da meia noite. Como eles sempre fazem.
     Conor estava acordado quando ele apareceu.
   Ele teve um pesadelo. Bom, não um pesadelo. O pesadelo. O pesadelo que ele andava tendo muito ultimamente. Aquele com a escuridão e o vento e os gritos. Aquele com as mãos escorregando, por mais que ele as tentasse segurar. Aquele que sempre terminava em... - Vá embora - sussurrou Conor para a escuridão do quarto, tentando conter o pesadelo, impedir que ele seguisse no mundo desperto. – Vá embora agora.
      Ele olhou para o relógio que sua mãe tinha colocado sobre a mesinha de cabeceira. 00h07. Meia noite e sete minutos. O que era tarde para uma noite com escola na manhã seguinte, certamente tarde para um domingo.
     Ele não contou a ninguém sobre o pesadelo. Não para sua mãe, claro, mas para ninguém mais também, nem para o pai durante a ligação que acontecia a cada duas semanas (mais ou menos), com certeza não para sua avó, e para ninguém na escola. De jeito nenhum.
     O que aconteceu no pesadelo foi algo de que ninguém mais precisava ficar sabendo.
     No quarto, Conor piscou atordoado, depois fez uma cara feia. Algo estava lhe passando despercebido. Ele sentou-se na cama, despertando um pouco mais. O pesadelo lhe estava escapando, mas havia algo que ele não conseguia identificar, algo diferente, algo...
     Ele ficou ouvindo, tentando ultrapassar o silêncio, mas tudo o que escutava era a casa tranquila ao redor dele, aqui e ali um estalar das escadas vazia ou algo se mexendo na cama do quarto ao lado, o quarto da mãe.
     Nada.
     E, então, algo. Algo que ele percebeu que foi o que o acordou.
     Alguém estava chamando seu nome.
     Conor.
     Ele sentiu uma pontada de pânico, o estômago se revirando. Será que o pesadelo o havia seguido? Será que o grito tinha dado um jeito de escapar do pesadelo e...?
     - Não seja estúpido – disse para si mesmo. Você está velho demais para acreditar em monstros.
     E estava mesmo. Ele completou 13 anos no mês passado. Monstros eram coisa de bebê. Monstros eram para quem fazia xixi na cama. Monstros eram para...
     Conor.
     Novamente. Conor engoliu em seco. Fazia um calo fora do normal em outubro, e as janelas de seu quarto ainda estavam abertas. Talvez aas cortinas resvalando umas nas outras com a brisa fraca soassem como...
     Conor.
     Certo, não era o vento. Com certeza era uma voz, mas não uma voz que ele reconhecesse. Não era a voz de sua mãe, isso era claro. Não era nenhuma voz de mulher, e por um instante de loucura ele imaginou se o pai tinha feito alguma viagem surpresa e ficou tarde demais para telefonar e ...
     Conor
     Não. Não era seu pai. Esta voz tinha algo de especial, um quê monstruoso, selvagem e indomado.
    Então ele ouviu um ranger alto de madeira vindo lá de fora, como se algo gigantesco estivesse caminhando sobre o piso.
     Ele não queria sair para ver, mas, ao mesmo tempo, parte dele estava louca para olhar.
     Todo desperto agora, Conor afastou os cobertores, saiu da cama e foi até a janela. Sob a luz fraca da lua, ele via claramente a torre da igreja sobre a colina atrás da casa, a colina com a ferrovia dando a volta nela, dias linhas de aço brilhando debilmente ao luar. A lua brilhava também sobre o cemitério ao lado da igreja, cheio de túmulos em que mal se podiam ler os nomes.
     Conor também via o enorme teixo que crescia no meio do cemitério, uma árvore tão velha que quase parecia feita das mesmas pedras da igreja. Ele só sabia que era um teixo porque sua mãe lhe contou, primeiro quando ele era pequeno, para ter certeza de que ele não comeria os frutos venenosos, e depois no ano passado, quando ela começou a aparecer na janela da cozinha com uma cara estranha, dizendo:
     - Aquilo é um teixo, sabia?
     E foi então que ele ouviu seu nome mais uma vez.
     Conor.
     Como se lhe sussurrassem nos ouvidos.
     - O quê? Disse Conor, o coração batendo forte, de repente impaciente com o que quer que fosse acontecer.
     Uma nuvem passou diante da lua, lançando escuridão por toda paisagem, e uma lufada de vento desceu pela colina e entrou em seu quarto, soprando a cortinas. Ele ouviu o range da madeira novamente, um gemido como se fosse um ser vivo, como o estômago faminto do mundo roncando por comida.
     Então a nuvem passou e a lua brilhou novamente.
     Sobre o teixo.
     Que agora se erguia firme no meio de seu jardim dos fundos.
     E ali estava o monstro.
     Sob o olhar de Conor, os galhos mais altos da árvore se reuniam formando um rosto enorme e horrível, com boca e nariz e até mesmo olhos que espiavam, cintilantes. Outros galhos se entrelaçavam, sempre crepitando, sempre gemendo, até formarem dois enormes braços e uma segunda perna ao lado de tronco. O restante da arvore se arrumou na forma e uma espinha dorsal e depois um torso, as folhas finas como agulhas se unindo para formar uma pele verde e peluda que se movia e respirava como se houvesse músculos e pulmões por baixo.
     Já mais alto que a janela de Conor, o monstro ganhou tamanho ao se recompor, adquirindo uma forma marcante, uma forma aparentemente forte e poderosa. Sem tirar os olhos de Conor nem por um só momento (o garoto era capaz de ouvir a respiração barulhenta e tempestuosa saindo-lhe da boca), ele pôs as mãos gigantescas nas laterais da janela, baixando a cabeça até que seus olhos imensos ocupassem toda a moldura, encarando Conor de maneira penetrante. A casa gemeu baixinho sob o peso do monstro.
     E então o monstro falou.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.


A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.

A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.

O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.

Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.
 

Contos Plausíveis, Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O João-de-barro do Meu Quintal, Olegário Mariano






O João de barro do meu quintal
Construiu dia a dia o seu ninho. Cantava
E cantando sonhava, trabalhava
Mal o sol descosia a bruma matinal.

Argamassou o barro e, solitário,
O ninho concluiu, graças a Deus,
Com a paciência feliz de um operário
Que, pedra a pedra, faz a casa para os seus.

Feita a casa limpinha, arejada e modesta
No poste mais agudo da Fazenda,
Foi para êle esse dia um domingo de festa
E uma canção mandou ao céu como oferenda:

“Bendita a água  que o barro amoleceu!
Bendito seja o sol porque o barro enrijou!
Bendita a vida pela força que me deu!
Ao meu amigo sol devo tudo que sou!”

Mais uma noite, (a casa estava pronta)
O temporal rugiu no cabeço do monte
E o trovão rebentou no céu de ponta a ponta,
As serras, abalando o horizonte.

A tromba –d’água , o frio e a rejada revolta
Varrem canto a canto o céu revôlto e a treva.
O João-de-barro andou como uma folha solta,
Fôlha que o vento traz, fôlha que o vento leva.

Quando veio a manhã clara de primavera
Havia troncos nus e paineira em rama.
O que era ninho é agora um resto de tapera,
O que era um bloco é agora um punhado de lama.

O João-de-barro do meu quintal,
Operário oprimido, envelhecido,
Pelas rudes angústias que sofreu,
Não mais enche de sons a curva do caminho.
Se canta, a sua voz mais parece um gemido
Dizendo ao meu ouvido:
“Seja maldita a água que o barro amoleceu!
Maldito seja o sol que não secou meu ninho!
Aqui tens, meu amigo, o que a vida me deu!”

Toda Uma Vida de Poesia, Vol. 2 ,Olegário Mariano Ed.José Olímpio 1957

Nota: o blog manteve a grafia original e o poema acima foi escrito em 1949 o que explica a incorreção em diversas palavras.