quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quarta-feira é dia de: Pé, Fraga

    
Segundo reza a lenda sem pé nem cabeça, o Homem começou a sua evolução com o pé direito.
     No início era uma dúzia de pés-rapados, mas logo se organizaram socialmente em das castas: os pés-de-boi e os pés-quentes. Aos primeiros cabia não arredar pé do pé-de-pilão; aos segundos, cuidar do pé-de-meia.
      Cada grupo cumpria ao pé da letra a sua tarefa. Afinal, o lucro era dividido em pé de igualdade. Não havia  ódios e todos faziam pé firme no regime.
      A sociedade cresceu, porque dava pé. E evoluiu: inventaram o pedal (depois, a roda); o pé-de-moleque revolucionou a culinária; encontraram a cura pro pé-de-atleta; apareceram as ciências (Pediatria, para tratar dos pezinhos dos nenês, e Pedagogia, para educar do pé-de-chumbo ao pé-de-porco); nas letras, fizeram sucesso os versos de pé-quebrado; construiram-se os famosos jardins suspensos dos igarapés; o Homem sonhava com o futuro, ao pé do fogo.
     Enquanto isso, os outros povos nem chegavam aos pés desses bons de pés em matéria de Cultura e História. As demais tribos viviam em pé de guerra umas com as outras. As cidades dos pés juntos surgiam aos montes, porque havia muita gente com o pé na cova.

     Então, com essa ameaça, a Sociedade ficou com um pé atrás. 
     E o pior aconteceu, no grande arrasta-pé anual, uma festa onde o prato principal era o bife a pé.
     Os nômades, bárbaros pés- rachados, atacaram em silêncio, na ponta dos pés, enquanto os pés-de-valsa dançavam.
     A sociedade foi atacada a pé-de-cabra e pé-de-mesa. Mas, rápida como um pé-de-vento, ela se defendeu. Com um pé nas costas, de tão forte que era. 
     A derrota dos assaltantes, uns peraltas, foi num pé só e eles nem tiveram tempo de pôr o pé no estribo.  O azar foi tanto que é provável que o golpe tenha sido dado  com o pé esquerdo.
     E foram escravizados, apesar de baterem pé que  que queriam era dar no pé dali. Jamais tiraram o pé do barro.
     Mas o problema mesmo foi conviver com os novos habitantes da Sociedade, no pé em que as coisas estavam: os escravos metiam os pés pelas mãos, não faziam higiene após irem aos pés e se recusavam terminantemente a participar de lava-pés e beija-pés (principalmente sem a primeira parte do ritual). 
     O que a Sociedade podia fazer? Não largar o pé deles? Já havia transtornos de sobra: epidemia de bicho-de-pé, a corrupção na cobrança de pedágio aos escravos pés chatos e a falta de um pé de apoio para não pisar em falso naquela anarquia.
     Para complicar, havia pederastia - um costume introduzido (disse bem) pelos bárbaros, que consistia em esfregar os pés nos pés de outra pessoa e ir subindo, até gozar pé por pé.
     E também não se podia mais distinguir quem eram os pedintes ( com seus chapéus rotos nos pés tortos, esmolando para comprar pés-de-patos e tomar pé no rio), tamanha era a balbúrdia geral. A Sociedade ia perecer.  A prova disso eram os pés -de- galinha nas mulheres com pés de anjo.
     Ah, pensaram os governantes, cairiam, sim, mas cairia de pé.
     Eles ainda tinham os pés na terra, embora quisessem pô-los na estrada. Planejaram uma caminhada de pedestres ( a pé, obviamente), sobre os  miseráveis. Iriam pisotear os invasores! Acabariam com os pés frios da sua antiga paz e felicidade!
     Ao pé de dois planos, avançaram. A turba anárquica, de pé fincado mas distraída, nem percebeu que a Sociedade vinha pé ante pé para desmanchar com os pés o que eles, os estúpidos, haviam feito com as mãos.
     Quando se deram conta, era tarde para ficar de pé. Ficaram foi petrificados, sem poder apertar o pé. Aí levaram um pé no saco.
     A batalha terminou em seguida e a Sociedade, em pedaços, tentou se reerguer. Em vão: seu pedestal tinha caído de quatro pés. Desesperados e meio pernetas, saíram perambulando sem saber ara onde.
      Até hoje estão peregrinando.
      Mas de vez em quando você pode perceber, ao pé do ouvido, um sinal daquela civilização: é o som de indivíduos da Sociedade trocando pontapés entre si.
      Nada mais pedante.

In: Punidos Venceremos. Fraga, Ed.Codecri 1981, págs.28-29
Nota: o blog manteve a grafia original.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Segunda-feira poetica: Seis Quadrinhas Avulsas, Fraga

I
Poeminha quando nasce
esparrama pelo autor
Menininha quando dorme
acorda Morfeu pro amor.

II
"Amai-vos uns aos outros"
é meu mandamento lapidar
Mas aviso aos seguidores:
só nas lápides é bom usar. 

III
Quem dá provas de caráter
caráter não tem pra vencer.
Mas se vender essas provas
caráter de ricaço vai ter

IV
Sou amante da Boa Vida,
da Natureza e da Santa Paz.
As três sempre me dizem
que como eu não fazem mais.

V
Pelo que conseguimos ver,
o futuro será um talo
pois castigo e presidente
vieram num mesmo cavalo.

VI
Ah, senhores sérios e sisudos
que se fecham para balanço:
por que não imitam os poetas,
que se abrem para o descanso?

In: Punidos Venceremos, pag.29, Ed.Codecri, Rio de Janeiro 1981

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Quarta-feira é dia de: Eu Nunca Vou Te Deixar, Pedro Bandeira



      Fazia frio naquela noite. Muito frio.
     Debaixo de um viaduto qualquer, num cantinho mais escuro, Beto e Vô Manduca aconchegavam-se em meio ao monte de papelões que os dois haviam empilhado dentro da carrocinha, depois de todo um dia a empurrá-la pelos quarteirões dos depósitos e dos armazéns, o melhor lugar para encontrar boas pilhas de papelão.
     Logo que amanhecesse, aquilo tudo seria vendido a alguma fábrica de papel e eles teriam dinheiro para sobreviver por mais um dia. Mais um dia para empurrar novamente a carrocinha, catando mais papelão para vender e sobreviver por mais um dia, para catar mais papel...
     No meio do papelão amontoado na carrocinha, o frio quase não penetrava, e Beto começou a adormecer, ouvindo os mesmos sons de todas as noites, o barulho dos carros que passavam, o tempo todo, ao lado e em cima do viaduto sob o qual estava estacionada a carrocinha.
     Em noites como aquela, costumava haver mais um hóspede dentro da carrocinha: um gato. Um gato qualquer, pobre e sujo como eles. Qualquer gato fosco, de indefinida cor e sem nome, que às vezes aparecia para filar uns restos do jantar e acabava pegando uma carona no meio dos trapos, dos papelões e dos dois seres humanos que o acolhiam.
     Quase todas as noites, Beto procurava arranjar um gato como aquele. De manhã ele sumiria, como sempre somem os gatos sem dono. Mas pelo menos durante a noite teria sido uma companhia para ele. Um pedaço vivo, magrelo, quente. Um brinquedo bom de acariciar enquanto o sono não vinha.
     Muitas vezes, principalmente quando fazia frio, abraçado com o gato vagabundo que acolhera, Beto sonhava com um gato só dele:
     - Sabe, vô Manduca? Eu queria um gato que ficasse com a gente. Um gato que aprendesse a me reconhecer. Que todos os dias comesse na minha mão. Que olhasse para mim quando eu o chamasse pelo nome. O nome que eu mesmo daria para ele...
     Vô Manduca sorria seu sorriso sem dentes, acariciava a carapinha do menino e mostrava sua sabedoria das ruas:
     - Durma, Beto. Gatos vagabundos não faltam. Enquanto você tiver algum resto de comida para oferecer, sempre encontrará um gato para comer na sua mão.
     Vô Manduca dissera uma vez que gatos não se apegam às gentes. Só se apegam às casas, onde recebem comida. Toda vez que se lembrava disso, Beto sonhava com uma casa. Uma casa onde morassem os três: ele, vô Manduca e o gato. De tijolos e telhas. Um sonho bom de se sonhar.
     Só os gatos pretos nunca dormiam no abraço do menino. Vô Manduca não deixava. Dizia que eles davam azar.
     - Gatos pretos não são gatos, Beto - dizia vô Manduca com um estranho brilho no olhar. – São almas penadas, fugidas do inferno. Quando cruzam o caminho de uma pessoa, essa pessoa está danada. Sete coisas ruins vão acontecer pra ela. Fuja dos gatos pretos, menino!
     - Mas você também é preto, vô Manduca. E eu também sou..
    - Nada disso! A gente é gente. Gatos pretos nada têm a ver com gente preta. Gato preto dá azar por sete anos inteirinhos!
     - E a gente, vô Manduca?
     - A gente tem sorte, menino. Eu tenho a você e você tem a mim. Quer melhor sorte do que essa?
     Não. Beto não podia querer melhor sorte do que aquela. Muitas vezes ficava distraído, olhando os outros meninos, bem-vestidos, de nariz limpo e empinado, sendo levados à escola em carros bonitos. Mas Beto já se acostumara a pensar que aqueles meninos eram mesmo diferentes dele.
     Ele bem que gostaria de... de quê? De andar naqueles carros, de estudar naquelas escolas? De poder passear livremente dentro do shopping de onde ele fora expulso aos pescoções na única vez que tentou entrar para olhar as vitrinas iluminadas?
     Tinha sido perto do Natal e ele... Naquele dia, Beto havia chorado muito, abraçado ao velho trapeiro:
     - Não me deixe, vô Manduca! Não me deixe!
     - Eu nunca, nunca, vou te deixar, Beto, meu menino... Eu sempre vou estar ao seu lado. Confie em mim...
     Beto só sabia que era Beto. Não sabia muito mais do que isso. Sabia também que não estava sozinho no mundo. Tinha vô Manduca para cuidar dele.
     Pouco mais do que isso Beto possuía. Nem a própria idade sabia e não tinha certeza se vô Manduca era ou não seu avô de verdade. O velho desconversava cada vez que ele tentava saber quem tinham sido seus pais.
     Beto frequentara a escola pública durante algum tempo. Lembrava-se muito bem do dia em que os dois estavam na secretaria da escola às voltas com o problema de preencher a folha de matrícula.
     - Hum... - fizera vô Manduca. - Aqui diz que eu devo escrever o seu nome completo, Beto.
     O menino era pequeno e, até aquele momento, "Beto" tinha bastado como nome para ele. Só naquela ocasião ele tomara consciência de que, para existir nos papéis, era preciso alguma coisa mais que "Beto".
     - Nome completo... Como é o seu nome completo, Beto?
     - Eu... eu... você não sabe, vô Manduca?
     - Eu? Quem deve saber do seu nome é você. Afinal, seu nome tem de ser seu, não tem de ser meu. Vamos ver... Hum, acho que Beto deve ser o mesmo que Alberto...
     - Alberto? Não pode ser Roberto?
     - Pode. É claro que pode. Então vai ser Roberto. Mas Roberto de quê? Todo Roberto precisa ter sobrenome, menino!
     O menino lembrava-se daquele dia como se aquele fosse o dia do seu nascimento.
     - Acho que tem de ser um sobrenome igual ao seu, não tem?
     - Igual ao meu? Mas eu sou só “vô Manduca”, não sou nada mais.
     - Então eu tenho de ser Roberto Manduca.
     - Ótimo! Roberto Manduca! Está resolvido. E aqui? Aqui nós temos de escrever a data do seu nascimento. Quando é o seu aniversário, Beto?
     - Eu não sei. Você não sabe, vô Manduca?
     - Que tal hoje? Hein? Que tal fazermos seu aniversário hoje?
     - Pode ter doce?
     - Claro que pode! - respondeu vô Manduca, batendo no bolso. - Eu tenho até um dinheirinho aqui!
E foi assim que surgiu no mundo um certo Roberto Manduca, matriculado na escola e comemorando seu nascimento na padaria, com guaraná e sonhos cheios de mingau amarelo.
     A escola exigira que fosse apresentada uma certidão de nascimento. Vô Manduca foi logo dizendo que a certidão estava em casa e que a traria depois. Casa? O velho e o menino moravam na única propriedade dos dois, a carrocinha que transportava papel velho catado no lixo. Dormiam debaixo da carrocinha, ou dentro dela, quando chovia e quando fazia frio, espremidos um contra o outro, aproveitando o calor de seus corpos. A carrocinha podia estacionar em qualquer lugar onde eles estivessem quando resolvessem parar de revirar latas de lixo.
     Assim, em que casa estaria a tal certidão de nascimento? O velho foi empurrando a promessa, adiando, cada vez que o menino trazia uma cobrança da secretaria da escola a respeito da tal certidão. E Beto estudou sem certidão nenhuma, até que teve de abandonar os estudos e dedicar-se o dia todo a ajudar vô Manduca, que envelhecia e já não podia empurrar sozinho a carrocinha.
     Sua vida era mesmo aquela, junto com vô Manduca, catando papéis e dormindo debaixo de viadutos. O que ele poderia querer mais? Talvez um gato só dele, para sempre dele. E uma casa para ter o gato.
     Uma casa! Um sonho feito de tijolos e de telhas. Ah, sim: sua casa haveria de ter tijolos e telhas! Nada daqueles barracos feitos com cacos de madeira e pedaços de plástico, como os da favela. A sua casa haveria de...
     Beto sonhava mais ou menos os mesmos sonhos todas as noites. Mas eram melhores as noites em que algum gato dividia a carrocinha com eles. Aconchegado ao seu peito, o ronronar do gato era um som gostoso, um carinho que o animalzinho devolvia em troca dos afagos do menino. E o menino acabava adormecendo, embalado pelo ronronar do companheiro e pelo ressonar de vô Manduca. Naquelas noites, Beto sentia-se feliz.
      Só que, desta vez, não havia gato na carrocinha para adormecer no seu abraço. Nenhum gato tinha aparecido e... Bem, havia um gato. Um gato preto, daqueles que vô Manduca tentava enxotar benzendo-se e murmurando esconjuros, com aquele estranho brilho no olhar. O gato pareceu perceber que não devia aproximar-se e ficou meio de longe, sentado, olhando fixamente o pobre jantar dos dois.
     Beto deixara sobrar boa parte da comida que o velho tinha arranjado para eles naquela noite. Colocou a comida em cima de um jornal dobrado e levou-a até o gato. O animalzinho olhou-o fixamente com aqueles olhos amarelos e em seguida concentrou-se na comida.
     Vô Manduca nada disse. Recolheu-se no meio dos papelões da carrocinha, ajeitando-se para deixar espaço para o menino.
     Beto ocupou o seu lugar. Aconchegou-se ao lado do velho, enrodilhando-se de frio.
     Pela fresta entre as tábuas da carrocinha, viu o gato preto, sentado no mesmo lugar, imóvel. Os olhos do gato brilhavam no escuro.
     Sentindo o peso do sono, aquecido pela proximidade de vô Manduca, Beto adormeceu.
     Não viu o gato, que se aproximava da carrocinha e entrava debaixo dela, mesmo sem ser convidado.
     Um murmúrio externo mostrou que eles não estavam mais sós, debaixo daquele viaduto. Era um barulho de quase nada, mas Beto acordou e olhou pela fresta da carrocinha.
     Três vultos reuniam-se perto deles, na sombra mais escura do viaduto, protegendo-se da iluminação noturna da avenida, sem perceber que havia gente debaixo daquele monte de papelão e jornais velhos.
     Falavam baixo, aos cochichos e, embora estivessem sentados quase ao lado do Beto, não dava para entender direito o que diziam.
     - ... deu certo! Ih, ih, ih! Deu mais que certo…
     - ... quanto será que tem aí?
     - ... monte de grana...
     - ... tomara que o Doutor chegue logo...
     - ... o Doutor deu a dica direitinho. Ele sabe bolar um assalto...
     Um carro acercava-se lentamente, com os faróis apagados. Parou. A porta foi aberta e mais um vulto recortou-se contra a fraca iluminação que vinha da avenida.
     - ... é o Doutor...
     - ... como planejamos...
     Beto segurou a respiração. O que fazia aquela gente?
     - Deu tudo certo, Doutor... – começou uma voz.
     A resposta do recém-chegado, que chamavam de Doutor, veio mais baixa ainda, sussurrante:
     - Tudo certo mesmo?
     - ... mais que certo, Doutor. Uma grana das grandes...
     - E os papéis?
     - ... tudo aqui. Isso vale dinheiro, Doutor?

     - Por que quer saber?
    - ... se vale grana, a gente quer a nossa parte...
    Depois de uns segundos de silêncio, a voz do Doutor veio mais forte:
    - Pois aqui está a parte de vocês!
Três vezes um brilho de fogo surgiu mais ou menos da altura da barriga do recém-chegado. Quase nenhum barulho saiu junto. O revólver do Doutor tinha silenciador.
     Um a um, os três vultos desmoronaram, desaparecendo na escuridão do asfalto.
     O Doutor deu dois passos, apontou a arma para baixo, em direção à cabeça do primeiro.
     Outra vez o brilho, quase sem som. Sob o impacto da bala, a cabeça atingida deu um tranco.
     A arma foi apontada para o segundo, e outra cabeça tremeu sob o brilho da pequena explosão.
Faltava o último, que caíra bem próximo à carrocinha. Gemia, agonizante. O Doutor apoiou uma das mãos na carrocinha, enquanto estendia o outro braço para o chão, na direção dos gemidos.
     Beto mordeu o lábio, segurando um grito de pavor. Uma mão apertou-lhe o braço: vô Manduca também acordara e procurava transmitir calma ao menino. Estavam os dois tão mudos quanto o monte de papelão.
     A arma brilhou mais uma vez. O volume atingido foi sacudido pelo impacto da bala. Algo esguichou na direção da carrocinha, como se alguém urinasse para cima.
     O esguicho de sangue entrou pela fresta e respingou no rosto do menino.
     Beto não conseguiu mais conter um grito, meio abafado, mas o suficiente para que o rosto do Doutor se voltasse para a carrocinha.
     Os faróis de um carro que fazia a curva iluminaram brevemente a cara do Doutor. Dois olhos de ódio fixaram-se por um momento no olhar apavorado de Beto.
Foi apenas um instante. No momento seguinte, surgindo do meio do papelão, um braço girou no ar e foi encontrar em cheio a cara do Doutor.
     - Fuja, Beto! Corra!
     O velho e o menino saltaram do meio dos papelões, como bonecos de mola pulando para fora de uma caixa de surpresas.
     Atingido pelo punho do velho vô Manduca, o Doutor caíra para trás, atordoado.
     Os dois tiveram aquele breve momento para correr. Saíram sem rumo, pela avenida deserta.
     O menino podia correr mais, mas agarrou-se à mão do velho, puxando-o.
     - Me larga, Beto. Corra, menino!
     Mas Beto não o largava.
     - Venha, vô Manduca! Força! Eu não vou deixar você!

     O velho levou a mão ao peito. Apoiou as costas em um poste. Um esgar de dor crispava-lhe o rosto enrugado. Vô Manduca gemeu e caiu para a frente, como um fardo pesado.
     Beto ajoelhou-se, aflito, e girou o corpo do velho.
     - Vô Manduca! Vô Manduca! Levante, vamos!
     Mal-iluminado pelas luzes do poste, vô Manduca olhava o rosto de Beto, suplicava que se safasse, sem nada dizer.
Um ruído gorgolejante saía de sua garganta.

     - Vô Manduca! Vamos, vô Manduca! Você tem de levantar!
   Um pequeno vulto estranhamente acompanhara os dois na fuga. O gato. O mesmo gato preto que testemunhara a cena brutal.
     Beto não tinha tempo de perguntar-se por que aquele gato estava ali, ao lado do velho, como se também se desesperasse com a situação, como se pressentisse a morte próxima, mais uma para somar-se aos três assassinatos covardes que eles haviam testemunhado.
     - Vô Manduca! Por favor! Você prometeu, vô Manduca! Você prometeu que nunca ia me deixar!
     O braço do velho estendeu-se para o gato. Frouxamente, aproximou-o do peito.
     O gato não tentou fugir e deixou-se abraçar.
     Vô Manduca envolveu o gato e, de sua garganta, as palavras saíram a custo, junto com a rouquidão da morte:
      - Eu prometi, sim, Beto, meu menino... Eu nunca, nunca vou te deixar... Olhe, este gato preto... este não vai dar azar. Vai dar sorte, muita sorte pra você... Meu menino, eu prometi... Nunca, nunca vou te deixar...
     Havia uma terna expressão de amor nos olhos daquele velho. Naqueles olhos que se imobilizaram, vitrificaram-se, enquanto os braços afrouxavam-se e caíam moles na calçada.
     Os outros olhos, os do gato, brilharam, refletindo a fraca iluminação da avenida.
      - Vô Manduca! Vô Manduca!
      O menino não pôde gritar mais. Um braço forte colheu-o por trás e ergueu-o do chão, como se ele fosse recheado de penas. Beto quis gritar, desta vez de dor e horror, mas a mão fechava-se em torno do seu pescoço, espremendo-lhe o pedido de socorro.
      Aquela cara assustadora estava a um palmo do rosto do menino e aqueles olhos assassinos encaravam-no, decretando sua sentença de morte.
      A outra mão aproximou-se com o revólver, e o cano, ainda quente das mortes que havia causado, colou-se à sua têmpora. O dedo premeu lentamente o gatilho, saboreando o momento em que a cabecinha de Beto explodiria, espalhando sangue e miolos para todos os lados.
     Mas foi somente um clic que se ouviu. O Doutor gastara todas as balas assassinando duas vezes aqueles três bandidos que tinham acabado de entregar-lhe o produto do grande roubo realizado sob seu comando.
      O Doutor soltou um urro de desapontamento. Mas não precisava de balas para liquidar aquela frágil testemunha. Era só apertar um pouco mais a pequenina garganta do menino. Era só esmagar devagarinho, arrancando a vida com a ponta dos dedos.
     Ouviu-se um espécie de grito. Não um grito humano, mas um berro animal, agudo e furioso, sobre-humano. Uma sombra negra pulou do chão e atracou-se à cara do Doutor.
       O gato! Era o gato que cravava as unhas na cara assassina.
       O Doutor urrou de dor, tentando arrancar a negra massa vingadora que o agredia, que o unhava sem piedade. Os dedos largaram a garganta do menino e Beto caiu na calçada.
     Tossindo, retomando a custo a respiração, puxando em largos haustos o ar para os pulmõezinhos vazios, engasgando, Beto recuperou-se um pouco. Levantou-se, cambaleou um instante sem rumo mas, junto com a vida que voltava a correr-lhe pelas veias, voltou-lhe a consciência do perigo. Sem olhar para onde, pôs-se a correr.
     O Doutor caíra para trás, lutando com o gato. Com um repelão, conseguiu afastá-lo do rosto, jogando-o longe. As garras do gato saíram-lhe do rosto arrancando pele, tirando sangue, dilacerando.
     O Doutor gemeu. Por um momento, apertou o próprio rosto, lanhado pelo gato. Mas ergueu os olhos e viu o menino já a uns bons metros, correndo o mais que podia.
     Virou-se e correu para o carro. Em um minuto engatava a primeira marcha e atirava o carro, a toda velocidade, na direção do garoto.
     Beto percebeu o que fazia o assassino. Era preciso correr, correr tudo o que pudesse, e tentar livrar-se da morte certa.
     Uma sombra corria ao seu lado.
     O gato. O gato, que facilmente o ultrapassou e correu para uma esquina. Correu e parou, voltando os olhos para o Beto. Eram dois pontos amarelos, que pareciam apontar-lhe alguma coisa. Parecia que o gato indicava-lhe para onde correr.
   Não havia tempo para pensar. Os pneus do carro do Doutor já cantavam, aproximando-se dele.
     O menino dobrou a esquina. O gato correu à sua frente, disparou como um raio negro e parou novamente, na esquina da próxima rua. Mais uma vez, parecia indicar-lhe o caminho.
     O carro perseguidor guinchou ao fazer a curva, no encalço do fugitivo.
     Beto corria como um louco, seguindo o caminho apontado pelo gato.
     Mas suas pernas já não agüentavam mais. Faltava comida em seu organismo, faltava-lhe a força que centenas de refeições fracas, de refeições ausentes, tinham reduzido.
     Beto diminuiu um pouco a corrida e caiu, exausto.
     Tentou levantar-se e caiu de novo.
     Estava em frente a uma construção iluminada. Levantou a cabeça, tonto, arfando, o corpo doendo, ardendo, o coração sofrendo, chorando, a mente confusa, nublada, desesperada.
     À frente das luzes que vinham de uma porta dupla de vidro, estava o gato. Atrás dele, Beto pensou distinguir alguns vultos, mas não teve tempo de assegurar-se de nada. O carro perseguidor freara guinchando a seu lado e já o corpo do Doutor debruçava-se sobre ele.
     Não pôde esboçar a menor resistência. As mesmas mãos envolveram-lhe novamente a garganta. O menino cerrou os olhos, apertado. Nada mais havia a fazer. Ele partiria também. Junto com vô Manduca. Quem sabe não reencontraria seu querido velhinho, talvez num lugar mais bonito, onde meninos não precisassem catar papelão no lixo, onde não houvesse sofrimento, onde não houvesse dor. Um lugar onde houvesse uma casa com tijolos e com telhas, onde ele poderia ter, finalmente, o seu gato de estimação.
     Estranhamente, as mãos abriram-se e seu corpo sentiu-se novamente solto, caindo na calçada.
      Surpreso, Beto abriu os olhos.
    Dois ou três homens agarravam o Doutor e o puxavam fortemente para trás, afastando-o do garoto, envolvendo-lhe o pescoço, torcendo-lhe os braços atrás das costas.
     Beto olhava a cena, tentando a custo compreender o que acontecia. Na porta dupla de vidro, atrás daqueles homens que não tinham dificuldade em dominar o assassino, havia alguma coisa escrita em grandes letras de fôrma.
     Beto saíra da escola, mas saíra pelo menos sabendo ler.
     Naquela porta estava escrito "DELEGACIA"!
     Recuperou o fôlego aos poucos. Viu o Doutor ser arrastado à força para dentro do prédio iluminado.
     "Vô Manduca...", chorava a sua alma por dentro, "Vô Manduca..."
     Alguma coisa roçou-lhe o braço, que se apoiava na calçada.
     O gato. Era mais uma vez o gato, agora trazendo-lhe um agrado, depois de lhe ter salvado a vida.
     Beto pegou-o no colo e apertou-o contra o peito.
     - Vô Manduca! Você não me abandonou, vô Manduca!
     Uma moça de uniforme policial abaixou-se ao seu lado. Passou ternamente o braço em volta do seu ombro.
     - Venha menino. Venha comigo. Não precisa ter medo. Nós vamos cuidar de você. Primeiro um banho, depois uma sopa bem quentinha e, depois... cama! Venha. Você não está mais sozinho.
     Beto sorriu. Levantou-se, sempre com o gato no colo, e encarou o rosto simpático da policial.
     - Não, senhora. Eu nunca estive sozinho!

 
Fontes: 

Texto: Ana Priscila 
Imagem: Uai
Nota: o texto foi escrito antes da reforma ortográfica 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Segunda-feira poética:Estampas Eucalol, Hélio Contreiras


Montado no meu cavalo
Libertava prometeu
Toureava o minotauro
Era amigo de Teseu
Viajava o mundo inteiro
Nas estampas Eucalol
A sombra de um abacateiro
Ícaro fugia do sol.
Subia o monte Olimpo
Ribanceira lá do quintal
Mergulhava até netuno
No oceano abissal
São Jorge ia pra lua
Lutar contra o dragão
São Jorge quase morria
Mas eu lhe dava a mão
E voltava trazendo a moça
Com quem ia me casar
Era minha professora
Que roubei do Rei Lear.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Palavras Para Minha Mãe, José Luis Peixoto


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

domingo, 14 de maio de 2017

Dia das Mães: Vó Eduarda, Marcius Malhem

Neste dia das mães eu quero falar sobre a mãe da mãe da minha mãe - também conhecida como minha bisavó. Para mim, vó Eduarda.
     Ela morreu quando eu tinha 16 anos , em 1988. Até meus 8 anos eu dormia muito na casa dela. Tempo suficiente para que a vpz com sotaque daquela velhinha portuguesa que cheirava a leite de Rosas nunca mais  saísse de minha memória.
     Lembro também, do Toddy gelado pela manhã, da farofa de ovos no almoço e do caqui no lanche.
     Ela chamava rabanada de "orelha de português", e me ajudava a pegar romã no pé com um bambu.
     Vovó era diabética  e se aplicava injeções de insulina mais de uma vez ao dia, na veia, amarrando o próprio braço. Antes ela fazia um teste para ver o nível de glicose, que consistia em urinar num tubo e pingar um reagente. Decorei que, se o líquido ficasse azul, da cor dos olhos dela, estava tudo bem.
     O dia mais importante do ano para ela não era seu aniversário, mas o 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Como o destino gosta de aprontar, foi nesse dia que nasceram minhas duas filhas.
     Era uma mulher forte, livre, dona do seu nariz. Ela me ensinou muito sobre amor e liberdade.
     Vó Eduarda teve cinco filhos com meu bisavô.Quando o mais novo tinha dois meses, ela se separou para viver um grande amor. É preciso muita coragem para se separar de um casamento com cinco filhos, nos anos 1930, em Nilópolis, cidade pequena na Baixada Fluminense.
     Mas o mais admirável nessa busca sincera pela felicidade é que o grande amor da vó Eduarda era uma mulher: dona Olga, ou a Velha, como ela chamava.
     Vovó e a Velha se conheceram me 1937 e se apaixonaram. Meu bisavô era jardineiro da casa de dona Olga, uma mansão na zona sul Rio.
     Vovô saiu de casa e Velha, deserdada, foi morar com vó Eduarda.
     Viveram essa paixão por mais de 40 anos, até a morte da Velha, em 1979, quando eu tinha sete.
     O amor daquelas duas mulheres conquistou o respeito de toda a idade e iluminou quem teve a oportunidade de conviver com elas, Eu tive essa sorte e me esforço - com Joana - para que minhas filhas também entendam que o importante é o amor.
     Outro dia brinquei com uma as meninas: "Filha, esse amigo aqui é namorado do papai há dois anos". "Claro que não é". Achei que era reflexo da velha visão de relação só homem/mulher, mas ela completou: "Dois anos? Você já teria me contado".
     Valeu, Vó.

Transcrito do Jornal do Commércio 14.05.2017

sábado, 13 de maio de 2017

Crônicas da MPB: Resignação, Luiz Carlos Paraná


Não, não foi surpresa para mim o que se deu
Foi tão natural saber
Que o nosso amor morreu
Não foi nada menos, nada mais do que esperei
Pois tudo na vida que eu não vi, imaginei
Já é difícil para mim perder a paz
E não é fácil eu chorar ou mesmo rir
Meu coração não bate à toa, nem demais
Já vi chegar o tanto quanto vi partir
Fizeste mal, mas só depois de tanto bem
Não é preciso que de mim se tenha dó
Quando chegaste eu já sabia ter alguém
Quando partiste eu já sabia viver só.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Quarta-feira é dia de: O Homem do Patchuli, Marcos Rodrigues

pogostemon cablin - patchouli       O Barbosa sempre teve algum sucesso com mulheres. Não por beleza, cabeça ou dinheiro, mas por gostar de dançar, o que é muito raro entre homens. No Clube Piratininga, ele sempre dança com uma, depois com outra e mais outra e assim vai noite adentro. No fim da noite, dançou com uma fieira delas, nunca de mesas próximas. Além de dançar bem, ele conduz bem e elas, assim, dançam melhor. Sentem-se melhor. Ele vai sem carro e sempre acaba pegando carona com alguma delas. 
É esse seu jeito discreto de ser.
     No final de 2009, o Barbosa foi para a Chapada dos Veadeiros em caminhada com amigos de Brasília. Passou a noite do Ano Novo em Alto Paraíso, vendo estrelas e esperando extraterrestres, muito comuns na região. Na volta, em Cristalina, topou com um viveiro de plantas à beira da estrada e encostou a picape. Ele sempre traz umas novidades de suas viagens.  
     Foi andando em meio às mudas e se interessou por um arbustinho sem vergonha. A dona do viveiro, uma morena alta, maior que ele, disse que era patchuli. Ele nunca vira a planta patchuli. Só conhecia a essência, os incensos, loções e perfumes, sempre associados à sensualidade.
     A mulher amassou umas folhas na mão e ofereceu para ele cheirar. Explicou que extrair a essência do patchuli era complicado, mas que ela, por exemplo, passava sua roupa de baixo com folhas de patchuli.
Aquelas palavras fisgaram o Barbosa. Com o olho brilhando, ele seguiu conversando até o anoitecer. Acabou ficando por lá. Quando acordou, sua roupa já estava lavada, secando no varal. Antes do meio-dia, a mulher passou as cuecas dele com folhas de patchuli e serviu o almoço. No que ele fechou a mochila, ela ajeitou as mudas na caçamba e empurrou o Barbosa pra estrada. Sabe-se lá porquê.
     Foi a partir daí que ele passou a usar cuecas passadas com patchuli, sua homenagem à goiana. Um tributo que lhe trouxe paz e serenidade. Para seu entorno também.
No Piratininga, teve ainda mais sucesso com as mulheres, sobretudo as maduras. Criou reputação. Todas sabiam quem era o homem do patchuli. Que conversa e dança, vem sem carro e volta de carona.
      Com o tempo, suas parceiras foram se conhecendo, conversando e, por fim, sentavam todas na mesma mesa. Eram as sete do Barbosa. E ele ali no meio, sempre alegre. Conversando e dançando.
     Não tardou muito para os outros começarem a falar mal daquele arranjo. As línguas ferinas diziam que ele usava as sete. Os homens diziam que ele era usado pelas sete. Incomodava aquele jeito alegre e divertido que os oito encontraram para viver. Talvez até por inveja, deitaram a falar mal deles. E muito.
     As sete, que em comum só tinham o Barbosa, amedrontadas foram se espalhando pelo salão. Foram se afastando, disfarçando. Deram um gelo no Barbosa. Uma tristeza.
     O Barbosa, que gostava delas, foi perdendo a confiança. Foi minguando. Por fim, desencanou e sumiu na poeira.
     Até hoje elas estão lá, à espera de um homem que converse, não reclame, seja alegre e dance. Às vezes conversam umas com as outras e há consenso.  Se já é difícil encontrar um homem que preste, imagine sete.

Fonte: Brasileiros

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Andar a Esmo, Sentir a Vida. José Antônio Pajeú


A esmo, caminhando pela Rua,
Percorri, canto a outro, a Imensidão.
O Imenso clarão da Bela Lua,
Derramando Luz e Cores pelo chão.
O cheiro denso da Brisa que flutua,
A roçar no meu rosto em Efusão.
O Barulho do Silêncio, eu só, a Rua,
O Intenso desejo da Paixão.
Tendo a vida, como Guia e Sentinela,
A levar-me pelas vias da razão.
A mostrar que a IMENSIDÃO é tão singela,
E que ela, a vida, é tão, tão bela,
Que vivê-la e sentir-se dentro dela,
Nos faz ver, que é bela, até, a SOLIDÃO.

Salve Jorge!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Polígamo, Tahar Ben Jelloun

     
Minha primeira mulher foi minha mãe quem me deu, Eu ainda era criança quando desposei a filha de minha mãe. Achava sua beleza natural, evidente, nas difícil de definir. Levei tempo para descobrir que eu não era seu único amante.
     Minha segunda mulher eu encontrei sozinho, ou quase. Ela me foi oferecida, mas era preciso seduzi-la, brincar com ela e envolvê-la para a merecer e conservar.  Apliquei-mea isso com batante energia.
     Agora que cheguei aos quarenta, convivo bem com uma e outra. Minhas duas mulheres não se entendem. Há um problema de comunicação. Elas são obrigadas a passar por mim para se falarem e até para brigar.
     Tenho preferência pela segunda, porque ela é estrangeira à tribo, e me ensinaram a ser cortês e hospitaleiro com os estrangeiros, particularmente comas estrangeiras. Minha cortesia não passa de aparência. Na verdade, sou violento. Gosto de dobrar essa estrangeira. Mas devo confessar que, muitas vezes, ela é quem leva a melhor. Ela me domina e ue me deixo levar. Eu sei: qualquer resistência é inútil. A prova: é ela quem fala por mim e expressa as palavras e a terra natal.
     A outra às vezes se insurge; toma o poder sem que eu perceba e se insinua nas dobras íntimas da outra face.
     Embora não se comuniquem, elas se enfrentam e armam emboscadas uma para a outra. Adoro quando tudo se agita, quando há troca de flechas, de frases e de imagens. Uma vira a outra e ambas zombam de mim. Elas se aliam contra mim. Vejo-me afinal sem recursos, isolado, despojado e abatido. Nessa hora, consulto o dicionário. É um amigo;mas um tanto rígido. Não tem muito humor. Ele me informa, mas não me ajuda em meus conflitos conjugais. É a favor da ordem e da moral. É justo e inequívoco, frio e intransigente. Ele me deprime e me desencoraja. Eu sou amoral. Isso não tem perdão, sobretudo num dicionário.
     Então, opto pelo silêncio. De minha janela, observo o silêncio. Vejo-o passar pela rua. vou ao seu encontro; ele me envolve e eu escuto. Muitas vezes ele é enganador. Levanta problemas que é preciso adivinhar. Eu grito.
    Grito para precipitar os acontecimentos. Nessa hora, minhas duas mulheres, assustadas, intervêm e cada uma se dispõe a me acalmar, a me dar o que me falta, a ternura e o amor, o orgasmo e o sol.
     Tão logo me sacio, elas me abandonam e vão se dar a outros. 
    Foi por isso que um dia resolvi ter uma escrita própria, que, boa ou ruim, bonita ou feia, simples ou complicada, iria ser minha, parecer-se comigo e satisfazer minha intimidade mais secreta.
    Enquanto isso, fui tentado por uma terceira história de amor. Subitamente, deparei-me com alguém estranho e ambíguo; caí ma ilusão  e no erro. Era noite;não lhe vi bem o rosto. Era uma aparição, um fantasma, uma espécie de travesti que me disse: "Vai, vai reencontrar tuas mulherzinhas! Tu as satisfazes, pelo menos? ..."
     Desde então, minha fidelidade é exemplar: eu vou de uma à outra e sei que dou mais à segunda porque ela é estrangeira, e as estrangeiras eu a prendi a amar.
     Esses amores me enriquecem. Não pago imposto. quando o fiscal da receita vem ver o que acontece, não entende grande coisa, perde-se nesta casa de muitos andares e muitas portas, e vai embora jurando que da próxima vez conseguirá me acuar.    
      Apaixonado, polígamo e fiel! Isso o irrita.
     Às  vezes me acontece sair da enorme casa. Aproveito-me do sono da primeira para levar a estrangeira a passear pelas ruelas de medina. Ela não usa djelaba nem véu no rosto. Caminha dando-me o braço; está nua. Não por ser impudica ou malcriada, mas por ser tão atraída  pelos tecidos da minha velha memória, pelas cores loucas das minhas raízes, que se cobre com elas à medida que entramos no labirinto de medina e da infância árabe.
     Minha primeira esposa não se deixa facilmente despojar de suas vestes. É altiva e muda em seu orgulho. Quando tento levá-la a um jantar dançante ou a uma festa-surpresa, empaca e se recusa a me seguir. Não sem violência, lembra-me suas origens, nobres e  sagradas inscritas no Livro santo, o Corão.
     Nisso a coisa é séria! Fica difícil brincar! O Corão é um milagre, inimitável e intocável. Ele me intimida. Ele me esmaga pela inacessível beleza de sua poesia.
     Então eu volto para a outra; e me liberto. Ela me acolhe de braços aberto, me dá seus lábios, me cobre com seus cabelos e nós fazemos amor na luz, acompanhados pela música de Vivaldi ou de Bach.
     Ela me ama. Ela me ajuda a viver. Temos conflitos. Mas "só a morte é tão rasa"!

Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, 2002, págs,167-170

Algumas obras do autor editadas em português (Estante Virtual  e Liv. Saraiva):

Moha o louco Moha o sábio
Os frutos da dor
Partir
O último amigo
Felicidade
O primeiro amor é sempre o último
O menino da areia
O racismo explicado à minha filha
O racismo explicado aos jovens
As cicatrizes do atlas
O Islamismo explicado às crianças