quarta-feira, 7 de junho de 2017

Quarta-feira é dia de: O Doido da Garrafa, Adriana Falcão


    
Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido. 
     Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.
     O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco comum nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou 17 dias para ser construída.
    Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Vai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e da apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.
        Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro do café, de cantar e de ouvir música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.
      Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.
     Tinha mania de dar entrevistas para o evento e já sabia a reposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.
    Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias como dorinfinita.
     Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas difíceis com eles.
     Conhecia mitologia a fundo.
    Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.
    Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.
     Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.
     Às vezes falava sozinho, mas só às vezes.
     Preferia tristeza à agonia.
    Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeça, incessantemente, a palavra ecumênico, sem ter a menor ideia da razão pela qual fazia isso.
    Durante o dia, o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.
     No fim do ano, ia trocar de carro.
     Era excelente chefe de família.
     Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.


Em:  O Homem Que Só Tinha Certezas,Adriana Falcão
Ed. Planeta  2006,Págs.43-46
Imagem: capa do livro O Doido da Garrafa.